Comunicações
Científicas
GEOMETRIA
MÉTRICA:
Uma seqüência didática com auxílio do software Cabri-Géomètre
II
Autor
: Afonso Henriques
henry @Jacaranda.uescba.com.br
O
presente estudo visa pesquisar como a Geometria pode ser ensinada/aprendida
com auxílio das novas tecnologias, enfatizando especialmente
o ambiente computacional Cabri-Géomètre II. Nesse contexto,
buscam-se as possíveis contribuições ou mudanças que essa
tecnologia pode trazer quando usada no processo de ensino
e aprendizagem da Geometria, tendo em vista as inúmeras dificuldades
ou obstáculos colocados para se ministrar tal disciplina nos
níveis de ensino fundamental e médio.
Por
meio de metodologia inspirada na Engenharia Didática e com
a preocupação centrada no aluno (futuro professor de Matemática),
foi proposta uma seqüência didática que utiliza o software
Cabri-Géomètre II como editor provedor de objetos geométricos
e suas relações, salientando seus aspectos didático-pedagógicos
e sua fundamentação teórica.
Os
participantes da pesquisa foram os alunos do primeiro ano
do curso de Matemática ingressos em 1998 na Universidade Estadual
Paulista Unesp/Campus de Rio Claro, Estado de São Paulo/Brasil.
Inicialmente foram avaliados com relação aos conteúdos de
Geometria correspondentes às séries anteriores cursadas, ou
seja, as do ensino fundamental e do ensino médio. Paralelamente
foram entrevistados alguns professores do Departamento de
Matemática, ao qual pertence esse curso, a fim de levantar
questões relativas ao ensino e aprendizagem de Geometria.
Os
sujeitos envolvidos na situação experimental puderam vivenciar
os princípios básicos do Cabri-Géomètre II, principalmente
em situações propostas no sentido de solucionar problemas,
segundo os níveis de intervenção do Cabri-Géomètre II:
construção, experimentação, formulação de conjecturas, criação
de estratégias de investigação, validação e demonstração.
Nessa linha, procurou-se explorar a estreita vinculação existente
entre a Geometria e a Álgebra de acordo com a noção de jogo
de quadros.
Os
resultados obtidos permitiram concluir que o enfoque computacional
via Cabri-Géomètre II é, didática e/ou pedagogicamente,
uma alternativa para a realização do ensino da Geometria,
em particular a métrica, pois facilita com vantagens a aprendizagem
dessa disciplina. E mais, o envolvimento dos futuros professores
na pesquisa, utilizando esse software, permitiu modificar
suas concepções em relação à aquisição de conhecimentos, sobretudo
os conceitos básicos de geometria e de seus fundamentos, relevantes
não apenas para o curso de Matemática que freqüentam atualmente,
mas principalmente para a carreira profissional de cada um.
The
present study seeks to research as the geometry can be taught/lerned
helped by technologies, especially emphasizing the computacional
focus through Cabri-Géomètre II. In this context, we look
for possible contributions or changes that this technology
can bring when used in the Geometry teaching and learning
process, aiming the countless difficulties or obstacles placed
in order to teach such course in teaching the fundamental
and medium levels.
Through
the methodology inspired by the Didactic Engineering and with
the concern centered in the student (future Mathematics teacher),
it was proposed a didactic sequence that uses the software
Cabri-Géomètre II as a geometrics objects supplier editor
and its relationships, pointing out its didactic-pedagogic
aspects and its theoretical fundamentation.
The
participants of the research were the first year students
of the Mathematics course ingressed in 1998 at the Paulista
State University-UNESP, in the city of Rio Claro, State of
São Paulo/Brazil. Initially they were evalueted in relationship
to the contents of Geometry corresponding to the series studied
previous, that is to say, the ones of fundamental and medium
teaching. Parallelly some teachers from the Mathematics Department
to which this course belongs were interviewed, in order to
lift relative subjects to the Geometry teaching and learning.
The
subjects involved in the experimental situation could experience
fully the Cabri-Géomètre II basic axioms, mainly in proposal
situation in the sense of solving problems, according to the
levels of intervention of Cabri-Géomètre II: construction,
experimentation, formulation of conjectures, creation of investigation
strategies, validation and demonstration. In this line, it
was tried to explore the narrow link existent between the
Geometry and the Algebra according to pictures game notion.
The
results obtained allowed the conclusion that the computer-based
focus through Cabri-Géomètre II is, didactic and/or pedagogically,
an alternative for the accomplishment of the Geometry teaching,
in particular the metric, because it facilitates with advantages
the learning of this course. And more, the future teachers'
involvement in the research, using this software, it allowed
to modify their conceptions in relation to the acquisition
of knowledge, above all the basic concepts of geometry and
of its foundations, important not just for the Mathematics
course that they frequent now, but mainly for the professional
career of each one.
Um
dos principais objetivos da Informática na Educação é o de
permitir especificar metodologia para o ensino e a aprendizagem
da Matemática em ambientes computacionais. Nesse âmbito, buscou-se
no presente trabalho enfatizar o ensino e aprendizagem da
Geometria - especificamente a Métrica no seu aspecto
uni e bidimensional - utilizando-se o software
Cabri-Géomètre II como editor provedor de objetos geométricos,
no contexto da Engenharia Didática como metodologia
de pesquisa, além do que, usa a Teoria de Situações Didáticas
de Guy Brousseau (1986) e Noções de registro e jogo
de quadros, de Regine Douady (1986), como suportes teóricos.
A
Engenharia Didática vista como metodologia de pesquisa
caracteriza-se, segundo Artigue (1988), por um esquema experimental
baseado em realizações didáticas em sala de aula, isto é,
na concepção, na realização, na observação e na análise
seqüencial de atividades de ensino. Nesse contexto, a
teoria de situações didáticas tal como desenvolvida por Brousseau
(1986) é de indiscutível importância. Ao enfatizar o processo
da aprendizagem sob forma de situações didáticas, propõe a
classificação desse processo em três tipos de interação do
aluno com o saber em jogo: ação; formulação e validação.
Nesse envolvimento pode surgir a idéia de analisar a situação
sob outro ponto de vista, o que vem de acordo com a noção
de jogo de quadros.
Ao
introduzir a noção de jogo de quadros em situações de aprendizagem,
Douady (1986) enfatiza que uma das características importantes
da Matemática é possibilitar a mudança de ponto de vista,
isto é, traduzir um problema de um quadro para outro com a
finalidade específica de acessar ferramentas de resolução
diferentes das inicialmente previstas. Um quadro é constituído,
segundo Douady, de ferramentas de uma parte da Matemática
e de relações entre objetos matemáticos.
Especialmente
para o ensino da Geometria esse processo pode revelar características
importantes, na medida em que se procura resgatar a estreita
vinculação existente entre a Geometria e a Álgebra.
A problemática em torno do ensino/aprendizagem da Geometria
que vem sendo vivenciada pelos alunos e professores nos ensinos
fundamental e médio como mostram os trabalhos de: Dante (1988);
Perez (1991, 1995); Pavanelo (1993); Lorenzato (1993, 1995),
até mesmo o SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação
Básica), entre outros preocupados e fascinados com o ensino
e aprendizagem da geometria, assim como o surgimento das novas
tecnologias na Educação Matemática motivaram o desenvolvimento
do presente estudo que tem por objetivo, pesquisar como
a Geometria pode ser ensinada/aprendida com auxílio das novas
tecnologias (destacando especialmente o software Cabri-Géomètre
II).
O
PROBLEMA
|
Avaliar se existem vantagens
de um enfoque computacional ao nível da interpretação,
tanto no plano "interno" ao Cabri-Géomètre
II (qual é a geometria de Cabri-Géomètre II?)
como no plano externo (qual é a geometria que um
aluno constrói para si utilizando Cabri-Géomètre II?),
intervindo na construção e exploração de situações geométricas,
formulação de conjecturas e suas demonstrações.
|
A
partir de uma análise da literatura pertinente à Geometria
em questão bem como da análise da geometria do Cabri-Géomètre
II, e ainda preocupado com a postura do aluno (futuro
professor de Matemática) diante de situações geométricas,
delineiam-se as seguintes questões diretrizes para esta pesquisa:
- Qual a concepção dos estudantes
e de professores em relação ao uso do computador/software
como meio educacional?
|
2. Que Geometria
Métrica o aluno constrói para si utilizando o software
Cabri-Géomètre II como instrumento auxiliar na aprendizagem?
|
Essas
perguntas ajudaram a esclarecer as possíveis contribuições
ou mudanças que as novas tecnologias podem trazer quando usadas
no processo ensino/aprendizagem.
|
JUSTIFICATIVA
DA PESQUISA
|
O
interesse pelo ensino e aprendizagem da Geometria surgiu durante
a graduação em função do envolvimento que tivemos com essa
área em pesquisas, utilizando a informática em projetos de
iniciação científica com apoio do CNPq. Foram desenvolvidos
dois projetos sobre o assunto. No desenvolvimento do segundo,
contou-se com recursos do Software Cabri-Géomètre
I, e nessa linha foram publicados dois artigos.
Por
outro lado, pesquisas que utilizam o software Cabri-Géomètre
como variável de transposição didática no processo de ensino/aprendizagem,
são desenvolvidas por estudiosos preocupados e fascinados
com o ensino da Geometria, em âmbito nacional e internacional.
Preferimos a segunda versão, Cabri II, por trazer mais
recursos numa interface agradável.
É
notável, contemporaneamente, que além dos recursos materiais
presentes na natureza ou dos construídos em conjunto com os
alunos, está o computador cada vez mais presente nas escolas.
E, segundo Barbosa & Lourenço (1998), o Cabri-Géomètre
é um dos melhores softwares educacionais para a descoberta
(redescoberta) de conceitos e propriedades (teoremas) relativos
à Geometria Euclidiana Plana. Vários argumentos justificam
essa assertiva; talvez o mais interessante para a educação
matemática seja aquele de permitir criar e deformar figuras
geométricas em segundos, utilizando o modo "agarrar-arrastar",
mas conservando relações. O mérito dessa inovação consiste
principalmente na abertura de uma nova grande gama de aplicações
e investigações educacionais em Geometria nos ensinos fundamental,
médio e superior.
A
Engenharia Didática, tal como vista por Artigue (1988) e Douady
(1993), foi utilizada como metodologia desta pesquisa. Em
função dos objetivos do presente estudo, destacam-se: as
concepções dos alunos e de professores; a realização e análise
seqüencial das atividades de ensino; a observação das estratégias
dos alunos durante a fase experimental da seqüência didática.
Inicialmente
foi feito um levantamento e estudo bibliográfico sobre o assunto
da pesquisa em paralelo com as disciplinas oferecidas pelo
curso de pós-graduação em Educação Matemática Unesp
Campus de Rio Claro-SP-Brasil.
Após
um estudo histórico e análise de alguns livros didáticos inerentes
à Geometria, elaborou-se um piloto (20
semestre 1997), contendo 8 questões de Geometria do ensino
médio e aplicadas a quatro alunos, dois do 1o
ano do curso de matemática e duas no 3o.
Como era de se esperar, as alunas do 3o
ano mostraram mais maturidade na resolução dos problemas propostos
(salvo pequenas falhas) do que os alunos do 1o
ano, que somente ratificaram suas idéias sobre os três primeiros
problemas, pois estavam enquadrados na parte da Geometria
que estavam estudando naquele período. A análise preliminar
indicou que os alunos que entram na Universidade Estadual
Paulista-Unesp-Rio Claro/São Paulo/Brasil para cursar Matemática
aprendem, aí, a Geometria que deveriam ter aprendido nas séries
anteriores.
Na
primeira semana do ano letivo de 1998, foi previamente solicitado
para a professora e à coordenadora da disciplina Geometria
Elementar, um tempo de duas horas no horário dessa disciplina
para aplicação do referido piloto (com algumas modificações)
como pré-teste da pesquisa, acompanhado de um questionário
(entrevista escrita) aos 40 alunos ingressos no curso de Matemática
da Unesp/Rio Claro naquele ano. Essa fase permitiu uma avaliação
dos conhecimentos geométricos adquiridos pelos alunos nas
séries anteriores (do ensino fundamental e médio). Na ocasião,
25 alunos responderam o questionário.
Uma
semana após a aplicação do pré-teste, foi apresentado aos
25 alunos o ambiente computacional Cabri-Géomètre II,
pois nenhum deles o conhecia. Em seguida, foram solicitados
os alunos interessados em participar do processo experimental
da pesquisa que teria duração de quatro sessões de duas horas
semanais cada. Todos mostraram-se interessados. Por motivo
de controle, durante a fase experimental, trabalhou-se com
10 (dez) alunos definidos através de sorteio, que contou com
a colaboração da professora desses alunos (da disciplina Geometria
elementar).
|
CONCEPÇÕES
DOS ALUNOS ANTES DE UTILIZAR O SOFTWARE CABRI II
|
Dado
o interesse em verificar a "bagagem" de conceitos
básicos em Geometria com que a nova geração está chegando
à Universidade, bem como oferecer alguma contribuição para
sua formação, além do contato com pesquisas em Educação Matemática
que discutem o ensino da Matemática nos ensinos fundamental
e médio, onde a maioria deles vai lecionar, propôs-se avaliar
os conhecimentos geométricos dos alunos, através da aplicação
do pré-teste.
O
teste certificou como caso particular a análise feita durante
o piloto.
Perante
a auto-avaliação (Henriques 1999, item 4, anexo I) sobre conhecimentos
geométricos, onde estabelecíamos três níveis ([ ]baixo, [
]médio e [ ]alto), a maioria dos alunos se atribuiu o nível
baixo, com as seguintes justificativas assim resumidas:
-
A geometria foi esquecida na minha escola, quase não vi
nada sobre a geometria; - Como matéria curricular
não obteve muita ênfase em geometria no segundo grau;
- Não tive um estudo proveitoso no segundo
grau sobre geometria; - Eu possuo na minha
concepção pouco conhecimento da análise de figuras geométricas;
- Pois como em outras disciplinas da Matemática,
ela é apresentada de forma inadequada e mecânica para
com os alunos; - Na escola estadual jamais
tive estudos minuciosos sobre a matéria; -
Assisti poucas aulas de geometria, e fiz colegial técnico,
no qual não tive essa matéria.
Quanto
à opção por cursar Matemática, os alunos comentam:
-
Primeiramente porque gosto, também porque quero saber
os conceitos, fórmulas, teoremas e postulados: de onde
vieram, como sugiram e quero ser professor; -
Porque me identifico na área de exatas; -
Por aptidão pessoal; - Porque é uma das
matérias que eu gosto muito e pretendo dar aulas; -
Porque me interesso com sua influência investigativa na
vida cotidiana; - Porque eu gosto de Matemática,
e tenho aptidão para aprender cálculo; -
Por influência da minha irmã que está terminando o curso
e por gostar da matéria; - Eu sempre me
interessei por ciências exatas, principalmente a Matemática,
tudo que ela engloba; - Porque eu gosto
muito de Matemática (apesar de não me dar muito bem);
- Por gostar de número e por gostar da matéria
(Matemática) em si;
Os
argumentos dos alunos nos revelam que, além dos problemas
enfrentados por eles nas séries anteriores com relação à Matemática,
há sempre quem se interessa em profissionalizar-se nessa área.
Assim, os cursos de formação de professores de Matemática
devem reconhecer tal fato e lançar para o mercado correspondente
indivíduos completamente preparados com intuito de suprir
os problemas vividos pelos alunos bem como pelos professores
nos níveis fundamental e médio que, muitas vezes, se justificam
de não terem dado este e/ou aquele assunto por não possuírem
formação adequada ou não terem visto o tema enquanto alunos
da graduação.
Nesse
entendimento, as novas tecnologias, em particular o software
Cabri- II, quando convenientemente utilizado, pode
contribuir para a formação de professores, proporcionando-lhes
recursos ou métodos para o ensino eficiente de Geometria nos
ensinos fundamental, médio e superior.
O
esquema experimental da pesquisa consiste numa seqüência didática
que tem por finalidade recontextualizar o saber matemático
em estudo, tornando possível acompanhar minuciosamente a evolução
dos alunos em termos dos efeitos da transposição informática.
Isso é feito através de situações didáticas, propondo ou não
aos alunos algoritmos que os auxiliam na construção de situações
geométricas utilizando o Cabri-Géomètre II.
As
referidas situações geométricas são fundamentadas em Geometria
Métrica no seu aspecto uni e bidimensional, isto é,
Medidas de Comprimentos e de Superfícies Planas (área).
Envolvem também semelhanças de triângulos e relações métricas
aplicadas aos estudos de figuras planas.
A
seqüência, por sua vez, consiste num estudo preliminar que
visa caracterizar os objetivos específicos de cada atividade,
a análise matemática e a análise didática relativas às
atividades propostas. A análise matemática destaca
as resoluções possíveis, a forma de controle e os resultados
esperados, enquanto a análise didática se preocupa
com as variáveis didáticas de situações, os pré-requisitos
e a competência. Variáveis didáticas são aquelas que
estão à disposição do professor para analisar situações didáticas
durante uma investigação (Almouloud, 1997).
A
seqüência foi dividida em quatro sessões de duas horas semanais
cada. Durante a aplicação da seqüência, o papel do professor-pesquisador
foi o de institucionalização de acordo com Brousseau (1986)
no estudo de sua teoria de situações didáticas. A situação
geométrica a seguir é um dos estudos propostos numas das sessões
da seqüência.
|
PERCORRENDO
A CLASSE DOS TRIÂNGULOS RETÂNGULOS E CONJECTURANDO
|
Objetivos:
construir um triângulo retângulo e uma circunferência
nele inscrita; descobrir propriedades nessa construção;
aprender a demonstrar propriedades em termos algébricos,
efetuando assim mudança de quadro; aprender a validar
propriedades com auxílio do Cabri II; verbalizar idéias.
Análise preliminar: As propriedades inerentes a
uma situação geométrica em estudo se tornam significativas
para o aluno na medida em que ele se envolve nessa situação
em função do meio. O Cabri-Géomètre II, sendo recurso
tecnológico para o ensino, facilita tal processo, podendo-se
enfatizar a manipulação direta (Bellemain, 1992).
Em
termos de ensino, especialmente no início do curso universitário,
os alunos abordam a Matemática a partir de um raciocínio preponderantemente
intuitivo. A atividade descrita aqui convida o aluno às descobertas
e demonstrações, baseando-se em leis universalmente lógicas.
Assim,
foi proposto (Henriques 1999, anexo III) que o aluno construísse
uma figura como a mostrada no quadro ao lado.
Os
valores introduzidos na tabela de forma sucessiva, ao
movimentarmos
a figura são dados que evidenciam a situação.
O
estudo ocorreu em três fases: a primeira correspondeu à modelação
do problema através de construções elementares; a segunda
resultou no registro e exploração da figura e, a terceira
fase, investiu na mudança de quadro (do computador para
o papel) a fim de permitir a demonstração algébrica. A
maioria conseguiu construir corretamente o triângulo retângulo
solicitado, usando Cabri II; outros construíram o triângulo
que aparentemente era retângulo, no entanto, perdia suas propriedades
iniciais ao ser movido. Quase todos os alunos tiveram dificuldade
para inscrever a circunferência no triângulo como solicitado.
Alguns conseguiram encontrar o centro (incentro
interseção de bissetrizes), mas a circunferência com
esse centro, que para eles aparecia inscrita, perdia tal propriedade
quando se movia a figura. Isso mostrava que faltava algo para
que o problema fosse efetivamente modelado. Discutiam entre
si trocando idéias e, quando não chegavam a um consenso, perguntavam
ao professor-pesquisador (como fazer isso ou aquilo? como
fazer para que a circunferência permaneça em contato com os
lados do triângulo ao mover a figura?). Outros nem tinham
idéia de que o centro da circunferência inscrita num triângulo
qualquer é a interseção das bissetrizes do triângulo
considerado. Sugeria-se, então, que construíssem bissetrizes
para encontrarem o incentro e a menor distância entre o incentro
e um dos lados do triângulo, caracterizando o raio. Assim
procederam, inscrevendo, portanto, a circunferência no triângulo.
Efetuando
os registros e as possíveis medidas, sugeria-se que construíssem
uma tabela para inserir nela os valores correspondentes a
cada configuração da figura durante a manipulação direta.
Ao se envolverem com o problema ao longo do episódio, que,
segundo eles, era divertido, passaram a surgir naturalmente
discussões e idéias plausíveis, como:
- Tomemos
como referência a figura. Dado um triângulo retângulo, encontrando
seu incentro e marcando os pontos de interseções dos lados
do triângulo e a circunferência temos: Multiplicando o segmento
AP pelo segmento PC, encontraremos um valor que é
o mesmo que a área do triângulo.
- As
medidas dos segmentos determinados pelos pontos de contato
da circunferência com os catetos são iguais com estes sobre
a hipotenusa, então podemos dizer que esses segmentos são
congruentes (apontando na figura OA=AP e PC=QC).
E a área do triângulo é igual ao produto desses dois segmentos
(apontando a hipotenusa).
- O
produto dos segmentos que dividem a hipotenusa é igual à
área deste triângulo !!!
- Conseguimos
verificar que a multiplicação dos dois seguimentos AP e
PC é igual à área do triângulo. Assim podemos
notar que através da interseção das bissetrizes podemos
encontrar o ponto de interseção da circunferência com o
triângulo, surgindo assim o ponto que mostra a divisão da
hipotenusa em dois segmentos.
- Se
eu somar, não vai dar nada relacionado com nada, se eu dividir
ou subtrair, também não dá nada. Mas, se eu multiplicar,
o produto dá a área do triângulo.
Esses
argumentos ou conjecturas dos alunos para nós foram significativos,
na medida em que refletem o interesse e a motivação deles,
ao se envolverem com o problema em estudo, onde o Cabri
II teve um papel importante. A terceira e última fase
dessa atividade mostrou-se a mais difícil na opinião dos alunos,
já que se tratava de demonstração formal. A regularidade do
resultado da propriedade por eles descoberta com auxílio do
Cabri II era considerada suficiente, pois para eles
a situação estava mais do que esclarecida, não precisando
de demonstração algébrica. Mas, como a intenção do estudo
era justamente provocar uma mudança de quadro, relacionando
a regularidade de resultados visualizados na tela do computador
com as exigências da cultura matemática, conduziu-se os alunos
à demonstração algébrica, tal como descrito no estudo preliminar
(Henriques, 1999).
Dentro
do domínio da pesquisa em Ensino Interativo Auxiliado por
Computador - EIAC, a Geometria elementar é considerada como
espaço adequado para experiências didáticas, sobretudo por
sua importância no processo de aquisição de conhecimentos
(Ferneda, 1993).
Contudo,
verifica-se que esse espaço é pouco explorado nos ensinos
fundamental e médio, alicerces do percurso acadêmico de
todo estudante, como se pôde constatar na entrevista/pré-teste
com os alunos (participantes) desta pesquisa, bem como nas
colocações dos professores entrevistados (Henriques, 1999).
Em geral, a pouca atenção dispensada à geometria elementar
pode ser vista como conseqüência da má formação da maioria
dos professores que leciona nesses níveis; a frase: "...fui
formado assim" é predominante na fala da maioria
deles com relação ao ensino/aprendizagem da Geometria.
Por
outro lado, é notável que a utilização de recursos tecnológicos
no ensino pode influenciar na formação de professores. Pois,
uma das observações importantes relativas às estratégias utilizadas
pelos sujeitos deste estudo sugere que o Cabri-Géomètre
II influencia fortemente no relacionamento professor/aluno
e principalmente na aprendizagem dos conceitos geométricos
propostos pelo professor, haja vista que este é um elemento
facilitador na aquisição de conhecimentos em meios
informatizados.
Em
Educação Matemática tem sido uma tradição nos modelos de ensino
e de aprendizagem enfatizar o conhecer de um dado fenômeno
primordialmente através da álgebra (Borba, 1995). Nesse sentido,
a noção de jogo de quadros (R. Douady, 1986) se mostrou
favorável na aprendizagem dos conceitos tratados, ao permitir
resgatar a estreita vinculação existente entre a geometria
e a álgebra: a maioria dos alunos conseguia chegar à mesma
conclusão com a influência do Cabri II.
Nesse
âmbito, como colocam Barbosa & Lourenço (1998), o Cabri-Géomètre
se constitui em um dos melhores softwares educacionais para
o ensino e a aprendizagem da Geometria Euclidiana Plana. Ou
seja, o enfoque computacional via Cabri-Géomètre II
é, didática e/ou pedagogicamente, uma alternativa para a realização
do ensino da Geometria, em particular a métrica, pois facilita
com vantagens a aprendizagem dessa disciplina. E mais, o envolvimento
dos futuros professores na pesquisa, utilizando esse software,
permite modificar posturas e suas concepções em relação à
aquisição de conhecimentos, sobretudo os conceitos básicos
de geometria e de seus fundamentos, relevantes não apenas
para o curso de Matemática que freqüentam atualmente, mas
principalmente para a carreira profissional de cada um.
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