Comunicações
Científicas
EM
QUE ETAPA DA APRENDIZAGEM USAR O CABRI-GÉOMÈTRE ?
- DISCUSSÃO E RESULTADO DE UMA ANÁLISE ESTATÍSTICA -
Gilson
BRAVIANO
Resumo:
Este artigo descreve algumas atividades realizadas com
alunos de graduação em Matemática onde foi aplicado o software
CABRI-Géomètre em aulas de desenho geométrico. Primeiramente,
investigou-se em que atividades esta ferramenta poderia
ser útil. Depois, fez-se uma análise estatística, comparando-se
os resultados obtidos por dois grupos de estudantes (usuários
e não usuários) de modo a descobrir se houve uma significativa
contribuição do software ao processo de aprendizagem.
Palavras-chave:
Desenho Geométrico, CABRI-Géomètre, Análise Estatística.
Abstract:
This paper describes an experiment performed with undergraduate
students in Mathematics whereas the CABRI-Géomètre software
was applied in geometric drawing classes. Firstly it was researched
in which activities this software would prove adequate. Secondly
a statistical analysis was made by comparing the results between
two groups of students (users and non-users) in order to find
out if there was a meaningful contribution of the CABRI-Géomètre
to the learning process.
Key
Words: Geometric Drawing, CABRI-Géomètre, Statistical
Analisys.
- Introdução
Apresentar
o conteúdo de uma disciplina aos alunos de modo a permitir
que eles construam o conhecimento nem sempre é uma tarefa
fácil. Com o advento do computador e das novas ferramentas
por ele proporcionadas, a aplicação do construtivismo em
sala de aula pode ser facilitada. É necessário, no entanto,
determinar em que momentos e, de que modo, a ferramenta
computacional será usada.
Nosso
objetivo, neste trabalho, é refletir sobre o uso do CABRI-Géomètre
como ferramenta pedagógica nas diversas etapas em que um
conteúdo pode ser apresentado. Trabalhou-se com o tema Transformação
de Figuras (por homotetia e simetria, principalmente),
presente no programa da disciplina Desenho Geométrico II,
ministrada no curso de Graduação em Matemática da UFSC -
Universidade Federal de Santa Catarina. Além disso, verificou-se
estatisticamente se o uso da ferramenta citada contribuiu
"significativamente" na aprendizagem.
- Atividades
Realizadas em Sala
Mesmo
com a utilização do CABRI-Géomètre, não se abandonou o trabalho
com régua e compasso; ao contrário, esses elementos se intercalaram
com as aulas de laboratório. Os alunos foram distribuídos
em dupla, por computador, de modo que em cada uma houvesse
alguém que já teve contato com computador para facilitar o
andamento das atividades. Nada impedia que as duplas interagissem
entre si e/ou com o professor.
Neste
artigo, a questão que se pretende enfatizar refere-se ao momento
em que o software deve ser usado como ferramenta pedagógica.
Isso pode ocorrer, por exemplo, na introdução de um
determinado tema ou como elemento de fixação após ter
sido apresentada a teoria. Essa questão não teria tamanho
interesse se houvesse laboratórios disponíveis para as diversas
turmas em todos os horários (o que permitiria idas e voltas
ao computador cada vez que isso fosse necessário). Daí a necessidade
de planejar os momentos em que o software seria utilizado
na abordagem dos conteúdos.
Outro
fator importante que não pode ser desconsiderado é a otimização
do tempo em função do tipo de aula e do programa da disciplina.
Sabe-se que aulas de informática, embora muitas vezes ricas
a nível de visualização, podem exigir mais tempo para o desenvolvimento
de certos conteúdos; assim sendo, o professor deve selecionar
os momentos em que o software será "abandonado"
dando lugar às aulas tradicionais, onde a velocidade de apresentação
dos conteúdos se acelera, cabendo aos alunos o uso da ferramenta
computacional em horários diferentes daqueles da aula. Descreveremos,
na seqüência, algumas das atividades realizadas.
2.1
Atividade I
O
exercício básico que serviu para a apresentação do
software aos alunos que não o conheciam foi a criação
de um triângulo qualquer para, em seguida, construir as circunferências
inscrita e circunscrita a esse triângulo. Usou-se, então o
CABRI em uma situação de revisão de um conteúdo já
visto (na disciplina, pré-requisito: Desenho Geométrico
I). Desta forma os alunos entraram em contato com os vários
menus do software (não foi utilizada a versão II do CABRI).
O triângulo em questão foi modificado e verificou-se propriedades
no caso dele ser isósceles, retângulo ou equilátero. Onde
ficariam o baricentro, o ortocentro, o incentro e o circuncentro
nesses casos? Qual é a condição para que o ortocentro fique
fora do triângulo? Respondendo a algumas perguntas, testando
propriedades, se questionando e discutindo entre si, a classe
teve sua iniciação com o software e ao mesmo tempo revisou
conteúdo da disciplina anterior.
2.2
Atividade II
Em
sala de aula apresentou-se o conteúdo relativo às razões e
proporções, médias geométrica e harmônica, assim como divisão
áurea. Como reforço, pediu-se aos alunos para construírem
no CABRI o áureo de um segmento
qualquer. Em seguida sugerimos que
obtivessem as medidas dos segmentos
e de seu áureo. Cada grupo verificou a relação de proporcionalidade
(desenvolvida em sala) entre esses segmentos, havendo então
uma consolidação entre as abordagens geométrica e analítica.
2.3
Atividade III
Buscou-se,
introduzir a Homotetia utilizando o software. Neste
caso, a estratégia foi a de levar os alunos à solução de
um problema proposto sem que conhecessem previamente uma técnica
específica. Tal problema, apresentado e analisado em Mounier
e Vivier (1993), constituía-se em inscrever um quadrado ABCD
em um triângulo PQR de modo que o vértice A pertencesse ao
lado PQ, o vértice B pertencesse ao lado QR e os outros dois
vértices do quadrado estivessem contidos no lado PR do triângulo
(ver figura 1). Não houve grande dificuldade por parte dos
alunos em resolver o problema para um triângulo dado (fig.
1a), mas quando modificavam esta figura de base a solução
não se mantinha (fig. 1b). Na busca de uma solução genérica
(fig. 1c) várias sugestões surgiram no grupo, hipóteses foram
testadas mas não conseguiram chegar sozinhos à solução do
problema. De qualquer forma, todo esse trabalho serviu de
base para que o tema Homotetia fosse apreendido com maior
facilidade, a partir das experiências realizadas com o software.
As discussões geradas no laboratório proporcionaram a verdadeira
aprendizagem: aquela onde o aluno constrói o conhecimento
na busca de uma solução. O uso do CABRI para verificar conjecturas,
mesmo que não se chegue à solução do problema é uma das principais
características deste software.


- (b)
(c)
Fig.
1 - Construção de um quadrado inscrito em um triângulo (a)
pela movimentação do ponto A sobre PQ, que não funciona para
(b) outra instância do problema. (c) Solução usando homotetia.
2.4
Atividade IV
A
transformação de figuras utilizando a simetria também teve
uma abordagem mista: aula clássica + software, onde
o CABRI foi usado em dois momentos: como indutor e fixador
do conteúdo. O problema introdutório
foi aquele de encontrar o ponto P sob uma reta, de modo que
a soma
+
fosse mínima, sendo dados A e B, do mesmo lado da reta (ver
fig. 2b). Tal problema permitiu aos alunos encontrar a solução
facilmente de modo experimental, medindo distâncias e, a partir
daí, generalizar a solução através da simetria.
Baseando-se
no mesmo princípio foi proposta a construção de um triângulo
ABC com perímetro mínimo, dado o vértice A e a informação
de que os outros dois vértices pertencem, cada um, a uma reta
(fig. 2a). Também, o problema típico de uma bola de
bilhar que faz tabelas duas vezes na mesa e atinge uma outra
bola foi resolvido pelos alunos.


(a)
(b)
Fig.
2 Problemas resolvidos através da simetria
2.5
Considerações
Observa-se
que, sem um contato mais profundo com o software, os
alunos cometem alguns erros típicos. Um deles é o de não utilizar
a opção interseção, mas marcar um ponto na posição
em que os elementos se cruzam (versão I). Isso descaracteriza
a criação de elementos dependentes, dificultando o trabalho
com o dinamismo das construções.
Pode-se
dizer que mesmo os problemas mais complexos podem ser abordados
em aulas de laboratório, desde que se tome a precaução de
conscientizar os alunos que nem sempre a obtenção de uma solução
significa a aprendizagem de um conteúdo. Gerar discussão e
testes de conjecturas, sim, trás resultados mais significativos.
Já o uso do software na consolidação de conceitos e técnicas
de construção é uma atividade que pode ser realizada fora
das aulas desde que essa meta seja cumprida. Tem-se a impressão
que a solução ideal é realizar algumas atividades de fixação
em aula de laboratório, para depois, com uso de régua e compasso,
desenvolver habilidades manuais necessárias ao profissional
da área de desenho.
3.
Análise Estatística
Buscando
comparar os resultados obtidos utilizando os dois métodos:
"com" e "sem" o uso do software CABRI-Géomètre,
utilizou-se dois grupos. O primeiro, composto pelos alunos
matriculados na disciplina Desenho Geométrico II no segundo
semestre de 1997, contando inicialmente com 14 estudantes;
o segundo, com 15 alunos matriculados na mesma disciplina,
mas no primeiro semestre de 1998.
Essa
partição permite pressupor a aleatoriedade das amostras, mas
impõe que as avaliações de conteúdo sejam diferentes pois,
evidentemente, repetir as mesmas questões em semestres sucessivos
iria interferir nos resultados obtidos pelo grupo mais recente.
Não cremos, no entanto, que o fato de usar avaliações diferentes
influa significativamente na nossa análise pois as questões
aplicadas aos alunos foram elaboradas de modo a estarem em
um mesmo nível de dificuldade.
Algumas
precauções foram tomadas como, por exemplo, a de não utilizar
os resultados de alunos que estão repetindo a disciplina.
Esta é uma variável externa a nosso sistema que pode influir
na análise. Tivemos também o cuidado de utilizar somente os
elementos da amostra que compareceram a, pelo menos, 50% das
aulas. Essa decisão se deve ao fato de estarmos comparando
duas técnicas e os resultados obtidos nas avaliações só farão
sentido se os alunos se submeteram a tais técnicas. De qualquer
modo, a freqüência insuficiente só se manifestou no grupo
de controle (aquele que não utilizou o software).
3.1
Os Resultados
O
grupo submetido à metodologia proposta obteve média
=5,8, com desvio padrão s2=1,55.
Já o grupo de controle ficou inicialmente com média 2,9. Não
levando-se em consideração as notas dos alunos com freqüência
insuficiente (buscando eliminar a influência desta variável
externa ao sistema), chegou-se à média que utilizaremos na
nossa análise:
=3,8. A tabela 1 mostra esses resultados.
3.2
O Teste Estatístico
Utilizou-se
o teste t para verificar se a diferença entre as médias deu-se
ao acaso ou se pode ter sido causada pelas diferentes técnicas
de ensino aplicadas aos grupos. Obteve-se, com 22 graus de
liberdade (n1+n2-2 ), t=3,1322, resultado
esse que fornece um nível de confiança acima de 99,5%, já
que o teste é bilateral. Deste modo podemos inferir que, a
utilização do CABRI-Géomètre contribuiu significativamente
para a aprendizagem do conteúdo de Desenho Geométrico utilizado
nesta pesquisa. Mesmo assim é importante salientar que o teste
realizado diz respeito apenas a uma parte do conteúdo de Desenho
Geométrico, exigindo cuidado nas generalizações que venham
a ser feitas.
|
Sem
CABRI
|
Com
CABRI
|
|
eliminando
variáveis externas
|
|
|
n
inic = 14
S
inic
= 40,5
= 2,9
sinic
= 1,68
|
n1
= 9
S
1
= 34
= 3,8
s1
= 1,45
|
n2
= 15
S
2
= 87
= 5,8
s2
= 1,55
|
Tabela
1 - Resultados fornecidos pelas amostras
4.
Conclusão
O
trabalho aqui apresentado é apenas parte de um projeto que
visa avaliar, também, qualitativamente o comportamento dos
estudantes frente à utilização do software nas aulas.
Constatou-se que o fato de trabalhar com computador em aula
desenvolveu nos alunos maior interesse, diminuindo o número
de faltas ou chegadas tardias. Crê-se que, com o advento da
informática, o uso desta ferramenta no processo ensino-aprendizagem
torna-se no mínimo recomendável. No Desenho Geométrico, em
particular, o dinamismo com o qual os problemas podem ser
tratados, associado à rápida verificação de construções e
propriedades contribui positivamente na construção do conhecimento
pelo aluno.
A
Análise dos vários momentos em que as aulas de laboratório
podem ser inseridas permite sugerir que, sempre que for possível,
o software seja utilizado de modo introdutório, onde, antes
de conhecer técnicas de solução de determinados problemas,
o aluno possa tentar visualizá-los e resolvê-los. Quando houver
falta de tempo para tais atividades, ou dificuldade em alocação
de espaço físico, o uso do CABRI em exercícios de fixação
é, no mínimo, aconselhável. Com a devida experiência, o professor
pode sugerir aos alunos a realização de outros exercícios
fora do horário de aula ou até mesmo durante estas (para aqueles
que terminam primeiro), deixando-os livres para extrapolarem
em função de seus interesses e curiosidades. Eis aí a oportunidade
de instigar os alunos menos dinâmicos, que se limitam apenas
a resolver as tarefas, a ir mais longe, buscando soluções
para novos problemas ou instâncias dos problemas já resolvidos.
Os
resultados estatísticos permitem inferir com excelente margem
de segurança que a utilização do CABRI-Géomètre contribuiu
significativamente para a aprendizagem do conteúdo de Desenho
Geométrico. Mesmo assim é necessário cuidado nas generalizações
que venham a ser feitas.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
BRAVIANO,
Gilson. O uso do CABRI-Géomètre nas aulas de Desenho Geométrico:
Resultado de uma Análise Estatística. In: IIo Congresso
Internacional de Engenharia Gráfica nas Artes e no Desenho
e 13o Simpósio Nacional de Geometria Descritiva
e Desenho Técnico. Feira de Santana-Ba, 1998, p. 359-366.
MOUNIER,
Gilles & VIVIER Gérard. Résoudre des Problèmes avec CABRI-Géomètre.
In:
Actes
de lUniversité dÉté : Apprentissage et Enseignement
de la Géomètrie avec
Ordinateur,
Grenoble, França, 1993, p. 75-85.
Autor:
Gilson
Braviano
Departamento de Expressão Gráfica - CCE - Universidade Federal
de Santa Catarina
CP 476 - 88.010-970 - Florianópolis/SC - Brasil
Fone: (0xx48) 331-9705 Fax: (0 XX 48) 331-9988
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