Comunicações
Científicas
CABRI:
a Formação e o Desenvolvimento Profissional de Professores
de Matemática
Autores:
Janete Bolite Frant, Monica Rabello de Castro e José
Carlos Araújo
Resumo
A
presente pesquisa teve por objetivo de analisar o impacto
do trabalho em um micromundo com o CABRI na formação de professores.
Definimos micromundo como um espaço onde aprendiz, máquina,
software, professor e demais aprendizes interagem. Desta forma
as atividades propostas e as relações sociais que acontecem
neste ambiente constituem os dados que são analisados. Dado
o objetivo deste estudo a opção foi por pesquisa qualitativa,
sendo realizado um estudo de caso com professores em serviço
(formação continuada), realizado na cidade do Rio de Janeiro.
Os dados foram coletados através de vídeos, áudio-tapes, diários,
entrevistas e transcrições. Este estudo foi baseado na análise
da Estratégia Argumentativa que permite olhar em profundidade
o engendrar do discurso, dos argumentos utilizados pelos participantes,
neste ambiente. Resultados parciais indicam que conteúdos
da Geometria Euclidiana inicialmente abordados pelos participantes
de forma estática e limitada, ganharam novas perspectivas
no trabalho neste micromundo, onde foram priorizadas trocas
cognitivas que provocaram mudanças de visão do ensino de Matemática
Abstract
The
purpose of this research was analyze the microworld
Cabri impact on teachers. Microworld means a space where machines,
software, teacher and others apprentice interact. According
to this microworld definition, activities and social
relations are the analyzed data. Following the purpose
of the study we chose qualitative research, specific a case
study among teachers in service, in Rio de Janeiro, Brazil.
Data was collected through videotapes, audiotapes, fieldnotes,
interviews and transcriptions. This study was based Strategy
Argumentation analyze that give to us the possibility of a
deep view on the discourse, the arguments used by all microworld
components. Partial results point that topics of Euclidean
Geometry at the beginning approached through a static and
limited way, gained new perspectives in this microworld, where
cognitive changes were priorities, and provoked a view change
of the teaching of Mathematics.
Introdução
A
área de Educação Matemática vem apresentando resultados de
pesquisa que têm influenciado nacional e internacionalmente
a elaboração dos currículos de Matemática nos diferentes níveis
de ensino. Sabemos, no entanto, que entre a pesquisa e a práxis
da sala de aula existe um caminho a ser percorrido.
Os
Parâmetros Curriculares Nacionais, a Reforma do Ensino Médio
e a LDB para o ensino superior anunciam um novo dimensionamento
para a prática educacional e uma nova política educacional,
concebendo maior integração entre as diferentes disciplinas,
onde, especificamente no caso da aprendizagem matemática,
possibilite ao indivíduo o desenvolvimento de novas estratégias
para resolver problemas do cotidiano, apoiando-se sempre que
necessário no uso de tecnologias que facilitem este processo.
Sobretudo, espera-se da formação do cidadão que ele aprenda
a aprender. Evidentemente, estas são boas iniciativas. No
entanto, um olhar mais cuidadoso para cada uma delas nos mostra
que a sua aplicabilidade e viabilidade em sala de aula não
são viabilizadas. O professor em serviço ou o futuro professor
- daqui em diante chamado genericamente de professor
sente-se perdido e sem saber por onde começar.
Esta
pesquisa teve como foco as seguintes perguntas: De que modo
um professor pode produzir conhecimento em Geometria trabalhando
com a Geometria dinâmica no computador? Que implicações, caso
existam, para sua prática na sala de aula este trabalho pode
oferecer?
Fundamentação
Teórica- Metodológica
Dado
o caráter dos objetivos desta pesquisa, optamos pelo estudo
de caso dada a riqueza de informações que podemos obter através
desta técnica. Faz-se necessário esclarecer em que perspectiva
entendemos e utilizamos conhecimento, produção
de significado e estratégia argumentativa
em nossa pesquisa, uma vez que esses conceitos vêm sendo utilizados
em diferentes abordagens.
Para
nós, o conhecimento não é uma coisa que pode ser transportada,
i.e., você pode dar informações a outras pessoas, você pode
transferir informações de um ponto a outro, mas não um conhecimento.
Não falaremos de transferência de conhecimento e sim de produção
de conhecimento. Nesta perspectiva, processos cognitivos não
acontecem passo a passo, do mais simples para o mais complicado,
ou seja, a imagem do edifício do saber onde se acrescentam
tijolinhos para sua construção, ou de pontes que ligam um
conhecimento a outro. Entendemos que o sujeito vai negociando
repertórios os mais diversos que de alguma forma se organizam
para este indivíduo. Sobretudo, as analogias e metáforas que
servem a um indivíduo não necessariamente auxiliam a um outro.
Segundo
Lins (1993) o conhecimento é o par (crença-afirmação, justificação).
Quando pessoas compartilham da mesma crença, mas com justificações
distintas, dizemos que elas produzem conhecimentos distintos.
Por exemplo, três pessoas podem identificar um triângulo mas
cada uma justifica esta identificação de modo distinto, a
primeira pessoa diz é um triângulo porque é uma figura pontuda;
para outra é porque é uma figura com 3 lados; e para uma terceira
é por ser um polígono com 3 vértices. A produção de conhecimentos
distintos poderá ser observada na resolução de problemas e
nas demonstrações. Tomamos o cuidado de falar de produção
de conhecimento, o que nos remete ao sujeito que o produz,
logo não estaremos chamando de conhecimento algo que foi dito
(oral, escrito, gestual) por outros, escrito em livros-texto,
colocado em aula expositiva por um professor, ou a fala de
um colega.
A
noção de produção de significado não está ligada a
idéia de ser significativo para este ou aquele indivíduo ou
para o professor. Adotamos a posição de Lins e por isso analisamos
tudo o que, efetivamente, é dito pelo sujeito sobre um objeto
e não o que poderia ser dito sobre o mesmo. Desta forma, os
argumentos utilizados para expressar crenças e justificações
compõem o corpus de nossa análise.
A
linguagem é um fenômeno ideológico por excelência, essencial
à toda criação ideológica. A língua normatizada não é o único
fator, nem o mais importante, embora seja fundamental no processo
constitutivo das linguagens. A necessidade de trocas, sobretudo
trocas infra-estruturais, é bem mais decisiva.
A
crítica sobre a visão representacional de linguagem incide
sobre a redução da linguagem à função de comunicação entendida
como ato de informar. A comunicação é a função fundamental
da língua e seu sentido é de fazer saber, ou seja, dar ao
interlocutor o conhecimento de coisas que ele não sabia antes.
A nova geração de filósofos da linguagem mostra que quando
alguém ordena, pergunta, pede, lamenta, queixa-se, faz rir,
ele faz muito mais do que informar, e que esse tipo de locução
supõe atos de linguagem que transformam as relações existentes
entre os interlocutores, sendo, portanto, atos. Nesse
sentido, o estatuto de verdade das enunciações fica condicionado
aos interlocutores, ou seja, às relações instituídas no interior
do grupo ao qual esses interlocutores pertencem.
Numa
situação de aprendizagem, muitas vezes o que o aluno quer
é, mais do que tudo, impressionar o professor ou algum colega.
Pode mesmo acontecer que o objetivo do aluno ao enunciar algumas
justificações para a resolução de algum problema matemático
seja meramente o de se livrar do incômodo de ser questionado.
As vezes o aluno cede a argumentos de um outro apenas porque
este outro é considerado bom aluno e não porque tenha concordado
com o que foi dito. Esta pesquisa pretende explicitar crenças
e justificações que os professores engajados na pesquisa empregam
quando desenvolvem atividades matemáticas inventariando, classificando
os tipos de argumentos usados por eles.
As
hipóteses enunciadas pelos sujeitos da pesquisa são o ponto
de partida da construção da argumentação, elas são o que o
locutor crê admitidas. PERELMAN (1992) chama de acordo
a esse conjunto de hipóteses sobre o qual o locutor se
baseia para construir sua argumentação. O acordo
comporta tanto o conteúdo das premissas escolhidas pelo
locutor, quanto as ligações particulares utilizadas para organizar
as premissas e o modo de se servir dessas ligações. A maneira
pela qual cada aluno escolhe as premissas de sua argumentação,
como ele as engendra, é resultado de uma elaboração, de uma
representação que ele tem de seu auditório. Essa elaboração
já contém o objetivo de persuadir. Os acordos sobre os quais
o aluno baseia sua argumentação partem de premissas que ele
crê admitidas pelos colegas mas que podem até não serem admitidas
por ele próprio. Tais premissas são tomadas em princípio como
aceitas visando a adesão dos colegas a outras teses, consideradas
importantes, e que, ao final, podem ser desvinculadas das
premissas iniciais. A argumentação consiste em estabelecer
uma solidariedade entre premissas admitidas pelo auditório
e as que se quer fazer admitir, ou, ao contrário, entre premissas
recusadas pelo auditório e outras que se deseja que pareçam
absurdas. As premissas de uma argumentação não implicam necessariamente
as teses, elas podem ser mais fortes ou menos fortes, podem
comportar uma ligação que tenha grande força coercitiva, mas
a adesão a elas deve ser entendida sempre como provisória.
Outros argumentos sempre podem ser evocados de modo a diminuir
a importância das premissas ou a enfraquecer sua ligação com
as teses do locutor e, com isso, tornar a argumentação sem
efeito.
As
ações pedagógicas que terão lugar nesta pesquisa caracterizam-se
essencialmente como situações de diálogo onde cada
um deve convencer o colega de que o caminho que escolheu
para desenvolver a atividade matemática é o melhor.
Geometria
Dinâmica
Existe
um consenso entre pesquisadores sobre a importância da visualização
em matemática. Em particular na Geometria, que inclui muitos
elementos visuais dado que seus objetos são figuras,
muito se tem colocado sobre a visualização e sua aprendizagem.
Um
grupo de pesquisadores segue a teoria de Van Hiele que surgida
em 1958, distinguia 5 níveis sequenciais do pensamento geométrico.
Após modificações em 1987 passou a apresentar apenas três
níveis, sendo que o primeiro nível é o reconhecimento ou a
visualização, isto é, a criança aprende os conceitos geométricos
de acordo com a aparência física como um todo e não pelas
suas propriedades (Herschkowitz 1994). Outro grupo, trabalhando
com outras teorias, também enfatiza a importância da visualização
no ensino de Geometria, em suas pesquisas Fainguelernt (1999)
e Bishop (1983) colocam as interrelações entre a visualização
e o desenvolvimento de conceitos geométricos.
As
novas propostas de desenvolvimento curricular PCN, Reforma
do Ensino Médio, e a LDB no Brasil, e os Standards nos Estados
Unidos e a reforma em Portugal recomendam inicialmente um
trabalho intuitivo apoiado na visualização para introduzir
o ensino de geometria. No entanto, como aponta Hershkowitz
(1994) se por um lado é importante o uso da visualização por
outro lado esses elementos visuais podem limitar o desenvolvimento
do conceito desejado.
A
introdução de computadores no ensino da Geometria, principalmente
os programas de "geometria dinâmica" que permitem
que o sujeito manipule as figuras geométricas na tela, fundamentam-se
nestes pontos: a importância da visualização e o cuidado com
sua limitação. Podemos citar o CABRI, o Sketchpad, o Geometric
Supposer e o Geometry Inventor.
A
geometria que pretendemos ensinar em nossas escolas, de modo
geral, lida com classes de figuras e não com uma figura particular.
No entanto, quando desenhamos no quadro ou pedimos ao aluno
para desenhar no papel, por exemplo, um triângulo, estamos
desenhando um triângulo particular e não um triângulo qualquer.
O uso do CABRI permite que após a construção de um triângulo
particular, com o auxílio do mouse possamos mexer"
tanto nele até o caso limite de colocar os três pontos colineares.
Este mexer oferece situações de desafio aos estudantes.
Desta forma hipóteses são levantadas e testadas, um estudante
deve convencer a um outro de que sua hipótese é válida.
Procedimentos
Metodológicos
A
formação de professores inclui os futuros professores e aqueles
que já se encontram em serviço, por isso escolhemos um grupo
de 4 professoras do ensino fundamental e médio. A pesquisa
foi realizada na cidade do Rio de Janeiro. Os instrumentos
de coleta de dados foram fitas de vídeo e áudio cassete, diários,
material escrito pelos participantes. A pesquisa contou com
um total de 6 encontros de 120 minutos cada. Além das gravações,
foi pedido as participantes que escrevessem um relato sobre
o que estavam desenvolvendo, as justificações e suas considerações
sobre as atividades e o programa.
Estratégia
Argumentativa
A
Estratégia Argumentativa é a maneira pela qual descrevemos
o engendrar dos argumentos durante um episódio. Para tal,
a coleta de dados inclui vídeos, fitas de gravador, diários,
entrevistas e transcrições. As atividades foram elaboradas
de modo que promovam a discussão entre os participantes, em
pequenos grupos, no grupão e com o professor/pesquisador,
já que nosso interesse recai na fala, nos gestos e na escrita
dos indivíduos participantes.
O
material foi trabalhado no sentido de se estabelecer as estratégias
usadas pelos professores para falar do assunto proposto. Buscamos
não tanto significações produzidas aqui ou ali, mas aquilo
que dá inteligibilidade e organização a fala dos professores.
Partimos do princípio de que a fala tem sempre uma finalidade,
nem que seja o elogio ou o lúdico, e mesmo nestas situações
o locutor tem que engendrar um jeito de dizer. É claro que
ele não é livre para falar o que quiser, existem regras e
normas sociais que devem ser levadas em consideração sem o
qual a fala será taxada como inadequada pelos interlocutores.
A
análise é feita inicialmente por um trabalho de reconstrução
de argumentos. Para isso é necessário escrever esquematicamente
qual é o argumento que está sendo usado pelo autor através
de enunciados simples que o resumam. A montagem de cada passo
do argumento parte da identificação e da avaliação da regra
de inferência que dá origem ao enunciado que o resume. Mas,
para compreender uma enunciação, não é suficiente avaliar
o contexto em que o discurso tem lugar e do qual faz parte.
Tem-se ainda que compreender a função da enunciação no próprio
argumento. A interpretação da argumentação requer toda informação
necessária para que se torne possível a representação do argumento
no quadro do modelo interrogativo escolhido. Portanto, procuramos
compreender como é que a intenção do falante determina suas
escolhas, ou seja, como é que a questão principal para ele
determinou a escolha de questões pequenas (questões operatórias)
por meio das quais a questão principal se efetiva.
A
Teoria da Argumentação é aqui utilizada como ferramenta de
análise e destaca relações entre o "tipo" de argumento
e os possíveis significados que produzem efeitos sobre os
auditores. A análise baseada na Nova Retórica centra-se na
busca das estratégias utilizadas para convencer o outro através
de argumentos. Essa ferramenta pode ser utilizada para encontrar
as relações entre os argumentos e os "efeitos" da
fala. Sobre cada parte escolhida do material coletado construímos
uma questão em direção à qual os argumentos parecem convergir,
tendo como passo inicial para a interpretação do argumento
a construção do tema em torno do qual a argumentação se desenvolve
(Castro, 1997).
Os
enunciados estabelecidos foram traduzidos numa seqüência de
perguntas-respostas e é a coerência dessa seqüência que nos
permitiu compreender e avaliar o argumento em questão. Foram,
então, estabelecidos as estratégias argumentativas utilizadas
pelos professores quando falavam sobre as atividades propostas.
A
análise dos argumentos é uma alternativa de análise de discurso
em que interpretações são procuradas muito mais junto à intenção
do locutor de persuadir que junto a significações pontuais
de cada momento do discurso.
Resultados
Parciais
O
material coletado e as leituras que fizemos do material coletado
levou-nos a alguns recortes. Desses recortes buscamos analisar
as falas das professoras, destacamos o papel do micromundo
dirigindo nosso olhar para três aspectos:
- Conteúdo
matemático - que diz respeito aos significados produzidos
para entes matemáticos e quando eles são inerentes ao
ambiente;
- Interações
- ações cognitivas, isto é, de que modo este ambiente
favorece trocas cognitivas;
- Visão
da matemática - que pensamentos têm em relação à matemática
e as modificações que esse ambiente possa ter provocado.
Para
cada um dos temas construimos um esquema. Eles resultaram
de outros esquemas maiores que foram filtrados de modo a que
destacassem nossas observações e mostrassem ao leitor, em
que ambiente se davam as produções das professoras. Os esquemas
montados resumem a análise feita sobre o material e é exaustivamente
descrito. Os argumentos utilizados pelos sujeitos da pesquisa
foram reconstruídos e classificados. Como se trata de um estudo
de caso, a descrição a que nos referimos compõem um material
denso com aproximadamente 80 páginas.
Conclusão
Os
resultados, ainda parciais das análises feitas mostraram que
os professores envolvidos produziram significados para a Geometria
de alguma forma dependentes do software utilizado. Apresentamos
alguns desses significados.
Ligar
um ponto a um objeto: O significado produzido para o comando
ligar um ponto a um objeto, foi o de fazer esse ponto
pertencer à esse objeto. Da interação com o aplicativo, das
respostas que eram obtidas à suas ações e pelas trocas com
seus pares, o significado que foi produzido pelos professores
foi o de fazer o ponto passar a ser um dos pontos do objeto.
Isso não parece óbvio, a expressão usada foi de surpresa:
"Ah! Ligar é isso?". No ambiente do lápis e
papel ligar certamente, ligar teria outro significado, mas
ali, para esse novo ambiente, ganhara esse significado. Não
demonstram curiosidade em justificar porque o ponto precisava
estar próximo do objeto para que então pudessem ligar o ponto
ao objeto, Esse era uma atributo do aplicativo.
O
comando borracha: É com surpresa que os professores reagem
a resposta do computador quando buscam usar o comando borracha
para apagar uma reta. Ao usar o comando borracha, B vê a reta
mudar de aspecto: a reta ficou pontilhada e, ao abandonar
o menu aspecto do objeto, onde o comando borracha se encontra,
a reta desapareceu. B pensava que a reta ficaria pontilhada
e não que ela desapareceria, pois, o uso da borracha tinha
levado o objeto a ficar pontilhado. Depois, refletindo sobre
o fato da reta ter desaparecido conclui que seria óbvio: usando
a borracha a reta seria apagada. Fora desse ambiente, usar
a borracha implicava em apagar a reta.
O
Histórico: Esse comando estava presente no menu diversos
e era explorado por uma dupla que observava e, demonstrando
surpresa e admiração, fazia referência às construções que
o Cabri repetia como sendo as ações que tinham realizado.
Segundo eles, o computador ia lembrando a ordem que tinham
feito suas construções. Atribuíam ao computador a capacidade
de pensar. Clicavam na tela e viam suas ações serem reproduzidas
enquanto elas iam lendo as mensagens que apareciam. O clima
era de admiração. O significado produzido sugeria que o comando
denunciava suas ações, que através do uso desse comando se
saberia como fora produzida um figura, isto é, o comando reproduzia
os passos realizados por quem a tivesse construído. Falavam
da máquina como se esta fosse uma pessoa. Ela, a máquina,
fazia parte integrante do ambiente, ou seja, o computador
era corporificado. Dessa forma, nesse micromundo, o computador
era visto como mais um indivíduo que se integrava ao ambiente.
Mais tarde esse comando, o histórico, foi usado para
descobrir como fora construída uma figura e, serviu para desvendar
como fora montada uma macro, um recurso que o usuário
tem no Cabri e que lhe permite construir um novo comando e
inseri-lo no menu.
O
simétrico de um ponto: Estavam exploravam no menu o comando
simétrico de um ponto. Esse comando constrói o simétrico de
um ponto em relação a um outro ponto ou em relação a uma reta,
é o usuário quem estabelece o que se pretende. Ao clicar esse
comando no menu, apontou com o cursor um ponto na tela e depois
mostrou um segmento. Assim, vemos na sua ação a expectativa
de que o aplicativo construísse o simétrico desse ponto em
relação ao segmento que apontara. No entanto, o Cabri não
responde com qualquer ação, ou seja, o aplicativo não construiu
esse ponto. Este fato, do aplicativo não responder à essa
expectativa, foi recebido com surpresa. Mas o Cabri não desenhava
o simétrico do ponto em relação ao segmento, apontava-se o
segmento e o aplicativo não aceitava sequer a indicação do
segmento. Então, a pergunta já não mais incidia sobre o fato,
mas sim sobre o que faz com que o Cabri não o construa, sobre
a existência desse conceito então. A questão seria de qualificação,
apontava para o que fazia com que o Cabri não construísse
o simétrico do ponto em relação ao segmento? Existe o simétrico
de um ponto em relação a um segmento?
Isso
acabou por envolvê-los em uma discussão, onde cada uma saía
em defesa de sua posição sobre o conceito de simetria em relação
a um segmento. Depreendemos daí que esperavam esse simétrico,
portanto, para elas era legítimo perguntar porque o Cabri
não aceitava tal comando.
Para
usar o comando simétrico de um ponto é necessário que mostremos
duas referências: ponto e ponto ou ponto e reta, conforme
queiramos o simétrico em relação a um ponto ou em relação
a uma reta. Essas ações, apontar um ponto e depois um objeto,
eram os atributos desse comando. Buscaram atender a esses
atributos mas se utilizavam de um julgamento prototípico,
na medida que pensavam apenas nesses atributos. Isso os fazia
clicar no comando, apontar o ponto e depois, numa ação automatizada,
apontar qualquer objeto para segunda referência. Quando o
Cabri não respondia com um exemplo positivo, mostravam-se
confusos, pareciam não refletir sobre o próprio conceito de
simetria. Essa exploração, traçar o simétrico de um ponto
em relação a um segmento, não fora planejada por nós quando
programamos as atividades. Aliás, essa era uma característica
do ambiente. Quase sempre, as surpresas envolviam-nos em novas
investigações. Nesse ambiente, as duplas estavam próximas
e essa proximidade foi importante para as trocas cognitivas,
na medida que podiam observar o que acontecia na tela da outra
dupla. As surpresas acabavam não só sendo responsáveis pelas
interações como orientavam suas próximas investigações. Nesse
aspecto, no micromundo que construíamos juntos, os professores
eram motivados pelas intervenções que se faziam e que constantemente
os envolvia em diálogos. Buscaram suas justificativas fora
daquele ambiente e a intervenção feita pela professora orientadora,
alimentou essa busca.
Não
exploraram o que aconteceria quando este ponto fosse movido.
A discussão correu apenas em torno da existência do conceito.
O Cabri exercia sobre eles uma autoridade. A existência ou
não de um conceito ou o que devia ou não ser ensinado em sala
de aula para o aluno, poderiam ser decidido pelo aplicativo.
Ele era visto por elas como fonte do saber matemático para
o aluno, e possivelmente para eles: a não existência de um
comando que construísse o simétrico de um ponto em relação
a um segmento, envolveu-os em diálogos para discutir a existência
desse conceito. O Cabri parecia ocupar um lugar de onde se
poderia buscar os conceitos legitimados pela matemática.
Referências
bibliográficas
Becker,
H. 1991. Mathematics and Science uses of computers in American
Schools. Journal of Computers in Mathematics and Science
Teaching. 10 (4) Summer pp 19-25
CASTRO,
Monica Rabello de : Retóricas da rua: criança, educador
e diálogos - Rio de Janeiro, Ed Amais/EDUSU, 1997.
Clements,D.1989.
Computers in Elementary Mathematics Education. Prentice
Hall, Englewood Cliffs.
Cory,S.
1991. Technology in Schools: Who will provide the leadership?
Computers in Schools. v8 (1) pp 27-43
Dalton,D.
1989. Computers in Schools Educational Technology
November 20-27
DiSessa,
A. 1990. Social niches for future software. In Toward
a scientific practice of science education, ed Garden
et. al. NJ:Erlbaum
Fagundes,
L.1993. Logo Environment: What do transfer to other contexts
and how does it happen? in Estes e Thomas (ed) Rethinking
the roles of technology in education v 12, 1326-1328
FAINGUELERNT,
Estela Kaufman; Representação do conhecimento através da
informática, Tese de Doutorado, 1996.
Frant,
J.B. 1992.Computer in Teacher Education: Rethinking Education.
in Education Sans Frontiers ed Estes and Thomas.
vol 2.Paris
________..1992.
Having Fun We Are Able to Learn: A Pedagogical Proposal.ibd.
________.1993.
Implementing Logo: Cross-Cultural Barriers in Rethinking
the Roles of Technology in Education. MIT Press vol 1.
________.
1994. Educational Computer Technology in Brazil: The
Diffusion and Implementation of an Educational Innovation.
UMI Publishers.
_________.
1994 O uso da informática na formação de professores. Revista
da SBEM.
HERSHKOWITZ,
Rina e Shlomo Vinner. "The Role of Critical and Non
critical Attributes in the concept Image of Geometrical
Concepts". In Proceedings of the Seventh International
Conference for the Psychology of Mathematics Education,
ed. Rina Hershkowitz. Israel: Weizmann Institute of Science,
1983.
KRESS,
G. et RODGE, R. - Language as ideology - London,
Routledge and Kegan Paul, 1979.
LABORDE,
C. & Laborde, J. M. (1992). Problem solving in geometry:
From microworlds to intelligent computer environments. In
J. Ponte, J. F. Matos, J. M. Matos & D. Fernandes (Eds.),
Mathematical problem solving and new information technologies:
Research in contexts of practice, pp. 177-192. Berlin: Springer-Verlag.
Lakoff,
G. & Núñez, R. (1997). The metaphorical structure of
mathematics: sketching out cognitive foundations for a mind-based
mathematics. In L. English (Ed.) Mathematical Reasoning:
Analogies, Metaphors, and Images (pp. 21-89). Hillsdale,
NJ: Erlbaum.
LINS,
R.C. e GIMENEZ,J. Perspectivas em Aritmética e Álgebra para
o Século XXI: Perspectivas em Educação Matemática. Campinas
- SP: Papirus, 1997.
LINS,
R. C. O Modelo Teórico dos Campos Semânticos: Uma análise
epistemológica da álgebra e do pensamento algébrico. Blumenal
: Revista Dynamis, 1994.
_________
Epistemologia, História e Educação Matermática: Tornando
mais Sólidas as Bases da Pesquisa. Revista de Educação Matemática
da SBEM : São Paulo, 1993
Paiva,
M. A. V., Silva, C. M. S., Cavalcanti, M. C. & Lourenço,
S.T. (1997). Cabri descobrindo a geometria no computador.
Espírito Santo: Gráfica Ita Ltda.
PERELMAN,
Ch. - O império retórico - Coimbra, Edições ASA, 1993.
Sant,
J. M. ( 1995 ). O "Cabri-Géomètre". Revista
do professor de matemática, 3 (4), 36-40.
VALENTE,
J. A. (1993): Computadores e Conhecimento: Repensando a
Educação, Campinas, Unicamp.
Schibechi,R.
1990. Logo in pre-service and inservice teacher education.
Computers in Education 14 (1) 53-60