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Comunicações Científicas

 

A CONTRIBUIÇÃO DO CABRI-GÉOMÈTRE PARA UM PROJETO
DE INTEGRAÇÃO DAS DISCIPLINAS GRÁFICAS

Maria Helena Wyllie Lacerda Rodrigues

 

Resumo

Este artigo discorre sobre a contribuição do software Cabri-géomètre ao projeto de pesquisa intitulado "Integração das Técnicas de Representação Gráfica: Um Trabalho Interdisciplinar com Apoio do Computador", que vem sendo desenvolvido na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro por esta autora, com ajuda de seis colegas do Departamento de Técnicas de Representação (BAR). Desde seu início, em novembro de 1998, o projeto tem também atraído o interesse de alunos de graduação e de pós-graduação, com resultados positivos.

Para demonstrar a utilidade do software Cabri-géomètre no estudo dos conteúdos gráficos, dá-se a princípio uma visão panorâmica do projeto, de seus objetivos e de sua metodologia. O uso deste ‘caderno de rascunho interativo’ é selecionado, em meio às demais estratégias didáticas, por sua compatibilidade com os assuntos tratados nas disciplinas gráficas e por permitir o enfoque interdisciplinar, essencial à pesquisa. Para enfatizar este aspecto, fala-se de uma determinada seqüência de ensino desenvolvida em arquivo do Cabri.

Palavras-chave: Disciplinas Gráficas; Estratégias Didáticas; Cabri-géomètre.

 

Abstract

This article describes the contributions of the Cabri-géomètre software to the "Integration of Graphical Representation Techniques: A Computer-Assisted Interdisciplinary Program" research project developed at the Federal University of Rio de Janeiro’s School of Fine Arts by this author, with the assistance of six of her colleagues from the Department of Representation Techniques (BAR). Since its introduction in November of 1998, the program has attracted the interest of both undergraduate and graduate students with positive results.

In order to demonstrate the usefulness of the Cabri-géomètre software in the study of graphics, we first present a general view of the project with its goals and methodologies. The use of this electronic scrapbook is selected among all other didactical strategies due to its compatibility to the subjects in the graphical courses, while permitting the interdisciplinary approach, essential to research. In an effort to make this point we describe a particular learning sequence developed as a Cabri file.

Key words: Graphical Subjects; Didactical Strategies; Cabri-géomètre.

 

O computador no ensino gráfico

Uma investigação ligeira sobre o tipo de produção apresentada nos Simpósios Nacionais de Geometria Descritiva e Desenho Técnico revela, com bastante clareza, as mudanças ocorridas nos últimos nove anos no que se refere às metodologias de ensino das linguagens geométrico-projetivas no Brasil (Rodrigues, 1998). Ao impacto inicial e ao retardamento decorrente dos problemas usuais quanto a prover as universidades com os equipamentos de informática, sucederam-se a introdução de novas disciplinas nos currículos dos cursos de engenharia, arquitetura, desenho industrial, etc e a criação de estratégias didáticas em que o computador ocupou posição de realce, notadamente impulsionado pela indústria de produtos tecnológicos especializados em representação gráfica. A escalada à dimensão virtual impôs-se nesta área como resposta às alterações que já vinham sendo efetuadas nos contextos empresariais, em que as técnicas de desenho são de grande importância.

O acompanhamento da prática de tais metas, ao longo desta última década, já nos permite fazer um julgamento mais preciso das vantagens obtidas bem como de alguns problemas decorrentes do uso das consideradas novas tecnologias ou, melhor dizendo, de sua utilização inadequada. Pensamentos como os de Elson M. Pereira (1997: 8) – Chegou o momento de refletir, com método, as repercussões do ensino de desenho informatizado; de avaliar metodologias; de ir além do ensino de comandos - e Ulbricht (1999: 9) – Mas qual é o cenário de hoje? Os professores de desenho parecem ter esquecido a sua função e procuram treinar o estudante no uso de programas CAD – já começam a ser manifestados em função da análise dos resultados desta aplicação.

A partir destes questionamentos, alguns pontos parecem ser confirmados, no exame da literatura especializada - Anand (1988), Maddux et al (1996), Bromley (1998) e outros:

1. O computador não somente é detentor de um potencial que pode torná-lo um excelente auxiliar no processo de ensino-aprendizagem (dimensão técnica) mas, sobretudo, um instrumento de prática social (dimensão social) e precisa ser entendido nestes dois níveis pelos vários atores que o manipulam no contexto educacional.

2. Para que efetivamente ele exerça o poder de máquina de ensinar, é importante que os professores saibam tirar partido de suas potencialidades por meio do planejamento e experimentação de abordagens preferencialmente baseadas em teorias de aprendizagem.

3. Na área gráfica, onde o traçado-resposta para problemas pode ser facilitado pelos programas computacionais de auxílio ao desenho, é recomendável fazer-se a conjugação do enfoque organizador do conhecimento sobre as operações necessárias à solução, ao correspondente manejo do ferramental eletrônico.

4. É aconselhável conciliar a ‘tradição’ com a ‘inovação’, para não se perder de vista o conjunto de conceitos e princípios que fundamentam o processo de resolução de problemas e, a partir deste conhecimento, estabelecer regras práticas para a sua solução.

 

Um projeto de integração das técnicas de representação gráfica

Nossa experiência na docência dos vários métodos exatos de expressão da forma na Escola de Belas Artes da UFRJ tem-nos apontado um problema cuja solução, embora sendo buscada, não logrou ainda ser encontrada por professores do Departamento de Técnicas de Representação – BAR. Trata-se, em síntese, da dificuldade de os alunos, no momento em que freqüentam nossas disciplinas, estabelecerem as devidas interações entre os seus conteúdos e visualizarem a utilidade de tais linguagens em sua futura prática profissional.

A identificação deste problema traz à luz suas conseqüências negativas mais imediatas: (1) a não compreensão interdisciplinar das diversas técnicas de representação; (2) uma tendência a memorizar soluções para os problemas gráficos – ‘receitas prontas’; (3) a falta de motivação para o estudo dos itens de seus respectivos programas, por não se perceber sua praticidade e, também, pela lentidão com que as novas tecnologias aplicáveis ao desenho vêm sendo adotadas pelo Departamento.

Não somos ingênuos a ponto de simplificar tais dificuldades, considerando-as superadas a partir do momento em que possamos instalar e utilizar plenamente em nossas aulas os aparatos tecnológicos. A bibliografia está repleta de exemplos em que, apesar de se lotar uma escola com equipamento moderno, sofisticado e dispendioso, seu uso não chega a significar um retorno justificável do que nele se investiu (Bryson & De Castell, 1998). Como já mencionado, outras variáveis importantes estão presentes neste processo e merecem nossa atenção. Mesmo assim, um movimento visando uma ação mais efetiva, através da discussão sobre o ensino gráfico e da busca de novas alternativas para o tratamento de seus conteúdos, veio ganhar força sob a forma de um projeto – o de "Integração das Técnicas de Representação Gráfica: um Trabalho Interdisciplinar com Apoio do Computador" - coordenado pela autora deste artigo.

Toma-se, então, como objetivo principal neste projeto: "Promover a integração das disciplinas gráficas do Departamento BAR da Escola de Belas Artes, através de um trabalho coletivo de criação de produtos visuais e materiais didáticos com o auxílio de recursos computacionais".

O trabalho produzido com fins pedagógicos é fundamentado em Piaget (1973) e Vygotsky (1978). Procura-se também estabeler conexões entre as idéias destes construtivistas na publicação de Tryphon e Vonèche (1996), cujos artigos se ocupam do relato e de reflexões sobre experiências que tomam por base suas teorias.

É adotado o método dialético para a análise crítica de textos que discutem os usos das inovações tecnológicas na educação e, em especial, no ensino das várias modalidades de desenho. Para o reconhecimento de diferenças e semelhanças entre as diversas técnicas de expressão da forma, vale-se do método comparativo. Esse procedimento vem permitindo a construção de recursos auxiliares à aprendizagem destas linguagens, a partir de um tema que lhes seja paralelamente aplicável. Pretende-se, portanto, oferecer aos alunos a ambientação adequada ao desenvolvimento do seu ‘pensamento geométrico’, mais do que trabalhar itens isolados constantes nos programas das diversas disciplinas gráficas.

A Fundação Universitária José Bonifácio – FUJB – prontificou-se a fornecer o software necessário, incluindo-se no conjunto o Cabri-géomètre, escolhido por sua extrema compatibilidade aos objetivos da pesquisa.

Participam do projeto, além da coordenadora, demais professores interessados do Departamento BAR (atualmente, um total de 6) e alunos dos cursos de Educação Artística na habilitação em Desenho e de Especialização em Técnicas de Representação Gráfica, os quais têm demonstrado desejo de associar-se ao grupo.

Planeja-se construir dois instrumentos: um questionário para a avaliação final e uma ficha de avaliação para os materiais criados. As observações feitas em encontros semanais do grupo de estudo vêm sendo devidamente registradas, de maneira a enriquecer a investigação. Para o tratamento qualitativo dos dados obtidos serão usados, como fonte de consulta, os trabalhos de Bogdan e Biklen (1992) e Miles e Huberman (1984).

 

A contribuição do Cabri-géomètre ao projeto

Em meio ao software específico para representação da forma, o Cabri-géomètre tem sido o que notadamente satisfaz a vários aspectos do estudo. Uma primeira característica positiva a ser listada, a qual de uma certa forma engloba todas as outras, é a feição didática do Cabri. Além de possuir uma interface bastante amigável, ele permite fazer uma abordagem construtivista dos conteúdos gráficos, na resolução de grande variedade de situações-problema, possibilitando a visão ‘conjuntista’ das entidades e relações geométricas.

Na tarefa de promover o desenvolvimento da ‘mente gráfica’, dois dentre os diversos recursos oferecidos pelo Cabri-géomètre vêm-se revelando como grandes auxiliares:

1. A macro-construção - não somente por facilitar a obtenção de figuras, evitando traçados repetitivos, como por estimular o usuário a ampliar o número de macros a fim de colocá-las à sua disposição. Aqui, acredita-se estar a grande vantagem do recurso ‘macro’ para o processo de construção do conhecimento: valendo-se de conceitos trabalhados em sala de aula, o aluno poderá dialogar com a máquina e conceber ‘comandos’, testá-los e utilizá-los no momento em que se fizerem necessários.

2. A animação – por permitir a visualização de situações freqüentemente consideradas difíceis de serem imaginadas pelos estudantes. A oportunidade de observar o movimento torna-se particularmente útil na perceção de certas relações como, por exemplo, a constância na relação entre o ângulo inscrito e o central, no arco capaz de um ângulo

Objetivando, então, desenvolver o pensamento geométrico e mostrar sua importância na resolução de questões práticas, mais do que simplesmente levar à assimilação de noções específicas a cada método de representação, os participantes do projeto têm procurado listar conceitos inerentes às linguagens gráficas e propor atividades em que estes se apliquem nas diversas disciplinas. Como ilustração, são comentadas e apresentadas algumas telas (Figuras

1, 2, 3, 4 e 5) da série didática que trata o conceito de ‘rotação’.

Na Figura1, mostra-se a rotação como uma transformação pontual no plano.

 

Figura 1

 

Na Figura 2, apresenta-se uma das aplicabilidades da rotação em programação visual: a criação de símbolos.

Figura 2

 

A Figura 3 apresenta uma das telas em que se trabalha o conceito de rotação no espaço tridimensional e, através da simulação perspectiva de uma situação espacial, pode-se visualizar o deslocamento do ponto em animação.

 


Figura 3

 

Expõe-se, na Figura 4, um dos momentos em que é estudada a rotação na Geometria Descritiva. O recurso de animação é particularmente útil ao mostrar o giro do segmento em torno do eixo, em ambas as projeções.

 


Figura 4

 

A ferramenta ‘locus’, aplicada à épura da tela anterior, permite visualizar a projeção horizontal da superfície gerada – um hiperbolóide de revolução. Destaca-se este traçado na Figura 5:

 

Figura 5

Conclusão

Em final de junho de 1999, foi feito um balanço do que se havia realizado até então. Naquele momento, avaliou-se a metodologia adotada e foram delineadas as novas diretrizes a serem seguidas no projeto, o que deu origem a um brainstorming para reforçar sua ‘filosofia’ interdisciplinar.

Uma primeira etapa tinha sido concluída: a que se destinara à familiarização dos participantes com o software gráfico futuramente utilizável na criação de material didático, com vistas a integrar os assuntos tratados nas diversas disciplinas do Departamento BAR. Durante aquele período, também foram feitas leituras e discussões de textos que versavam sobre os usos computacionais na educação. Esse tipo de atividade possibilitou uma reflexão profunda sobre a importância de se usar o ferramental tecnológico no desenvolvimento dos conteúdos gráficos, bem como a de manter um pensamento crítico a respeito das várias dimensões de sua utilização. Significou ainda, mais do que a aquisição e produção de conhecimento, a adoção de uma nova conduta, por parte do grupo, em relação aos rumos que o ensino das técnicas de representação da forma deveria tomar.

A investigação sobre a potencialidade do software Cabri-géomètre aumentou as expectativas dos docentes em relação ao possível enriquecimento das aulas de desenho geométrico e projetivo, com vistas a ampliar o ‘pensamento visual’ dos alunos que as freqüentam.

Em sua essência, o projeto é pensado em termos de motivar uma ação em que os vários atores sociais envolvidos possam participar de uma agenda comum: explorar novas alternativas para trabalhar a interdisciplinaridade dentro de um contexto que alia ciência, tecnologia e arte.

 

Referências Bibliográficas

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BOGDAN, R. C.; BIKLEN, S. N. Qualitative Research for Education: An Introduction to Theory and Methods. Boston: Allyn and Bacon, 1992. 262p.

BROMLEY H. Introduction: Data-Driven Democracy? Social Assessment of Educational Computing. In: Education/Technology/Power; Educational Computing as a Social Practice. Hank Bromley and Michael W. Apple – ed. – New York: State University of New York Press, 1998. pp 1-28.

BRYSON. M & CASTELL, S. Telling Tales Out of School: Modernist, Critical, and Postmodern "True Stories" About Educational Computing. In: Education/Technology/Power : Educational Computing as a Social Practice. Hank Bromley and Michael W. Apple – ed. – New York: State University of New York Press, 1998. pp 65-84.

MADDUX, C.D, JOHNSON, D. La Mont, WILLIS, J. W. Educational Computing: Learning with Tomorrow’s Technologies. Boston: Allyn & Bacon, 1996.

MILES, M. B.; HUBERMAN, A. M. Qualitative Data Analysis: A Sourcebook of New Methods. Beverly Hills, California: Sage Publications Inc. 1984. 251p.

PEREIRA, Elson M. Palavras, Palavras... In: Graf&Tec, dez.: UFSC, 1997. p.8.

PIAGET, J. Biologia e Conhecimento. Petrópolis: Editora Vozes Ltda, 1973.

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TRYPHON, A. VONÈCHE,J – ed. Piaget – Vygotsky: The Social Genesis of Thought . UK: Psychology Press, 1996.

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VYGOTSKY, L. S. Mind in Society: The Development of Higher Psychological Processes. Harvard University Press, 1978.

 

Maria Helena Wyllie L. Rodrigues
Departamento de Técnicas de Representação – EBA – CLA – UFRJ
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