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Relatos
de Experiência
A
CONSTRUÇÃO DE OBJETOS GEOMÉTRICOS EM AMBIENTES DINÂMICOS
Celia Finck Brandt
Márcia Dallagrana Colatusso
Na
construção do conhecimento o papel da ação mental tem que ser
considerado tanto na organização cognitiva dos sujeitos, quanto
nas sucessivas ultrapassagens presentes na construção do conhecimento.
Ao considerar o papel essencial da ação mental, contamos com
elementos que possibilitam discutir, avaliar e re-significar
as iniciativas e o horizonte teórico das ações pedagógicas.
Tais elementos devem se referir às relações entre sujeito e
objeto de conhecimento no domínio do epistemológico e às formas
como os sujeitos se organizam para responder aos desafios do
ato cognoscitivo, no domínio do psicológico. Esses elementos
são necessários e inerentes ao ato de aprender e se refletem
no domínio do metodológico que compreende a organização das
atividades de ensino. Segundo ROSSO (1999),
As
atividades de ensino precisam considerar e apoiar-se
no processo operativo da inteligência presente na construção
do conhecimento. [...] Para o julgamento e adequação
dos métodos de ensino é necessário buscar os elementos
presentes na raiz da interação cognitiva. [...] ativar
a operatividade da inteligência na aprendizagem escolar
constitui o compromisso fundamental para qualquer método
de ensino que busque redefinir os papéis dos agentes
do processo ensino-aprendizagem.
Outra
questão a considerar é que as noções não são tiradas da manipulação
dos objetos, mas da coordenação das ações do sujeito.
As
operações manifestam a inteligência atuando, funcionando, desenvolvendo-se
como uma totalidade resultante da assimilação e da acomodação.
A
acomodação manifesta-se através da progressiva exercitação de
uma determinada forma de proceder, diante dos desafios. Na hipótese
do indivíduo ter conseguido pela sua forma de conhecer, dar
conta do problema, temos então a assimilação do objeto. Se houver
desequilíbrio a favor da acomodação, o indivíduo não assimila
os objetos ou assimila parcialmente . Essa assimilação parcial
é chamada de imitação que, em sala de aula, se manifesta pela
repetição interminável dos modelos propostos pelo professor.
A
construção do conhecimento, segundo Piaget, supõe assimilação
e acomodação e também pode ser explicada pelo processo de abstração.
Segundo Piaget (1995),
[...]
a abstração reflexionante (réfléchissante)[...] apoia-se
sobre [...] todas a atividades cognitivas do sujeito
(esquemas ou coordenações de ações, operações, estruturas,
etc) para delas retirar certos caracteres e utilizá-los
para outras finalidades (novas adaptações, novos problemas,
etc).[...] ela é reflexionante em dois sentidos complementares[...]:transpõe
a um plano superior o que colhe no patamar precedente.[...]designaremos
esta transferência [...] com o termo reflexionamento
(réflechissement).[...] reconstruir sobre o novo plano
B o que foi colhido no plano de partida A, ou por em
relação os elementos extraídos de A com os já situados
em B. Esta reorganização, [...], será designada por
reflexão(réflexion). [...] nos níveis superiores quando
a reflexão é obra do pensamento, [...] se torna, então
uma reflexão sobre a reflexão [...] falaremos neste
caso de abstração refletida (réflechie) ou de pensamento
reflexivo. (PIAGET, 1995, p. 6)
Após
uma dada atividade, precisamos compreender a lógica que leva
o sujeito a dar esta ou aquela resposta, ou a fazer de um ou
de outro jeito.
Segundo
NOT (1987) o conhecimento é o resultado de certo número de condutas,
e o poder de novas condutas, através das quais ele se exprime
sob a forma de reprodução ou de invenções originais e depende
da interestruturação entre sujeito e objeto de conhecimento
que, no trabalho geométrico, é evidente. O sujeito constrói
a figura segundo a descrição que o enunciado dela dá, mas, sobretudo,
pela análise que ele aplica aos dados. Mas a relação é recíproca
e o objeto estrutura o sujeito. Em razão das propriedades de
que é dotado pelo próprio ato que o criou, o objeto canaliza
o procedimento do sujeito em direção ao esclarecimento daquelas
propriedades que não são aparentes, de imediato. O sujeito é
estruturado pelas necessidades imanentes ao objeto; os fatos
são radicalmente independentes de sua vontade, dos sentimentos
que inspiram, ou da apreensão fenomenal que deles têm.
Tendo
em vista as questões evidenciadas na construção do conhecimento,
passaremos agora a refletir sobre a construção de objetos geométricos
e as possibilidades de construção desses em ambientes dinâmicos
de aprendizado, em confronto com ambientes estáticos.
Em
se tratando de objetos geométricos, a preocupação deve recair
sobre a sua natureza dual: a figura é o objeto teórico e difere
de sua representação material. Esse caráter dual tem repercussões
significativas na construção do conhecimento, pois como representações
de figuras, os desenhos podem provocar percepções visuais e
sugerirem conceitos teóricos. Esses aspectos conceituais e teóricos
podem entrar em conflito, visto a interestruturação entre sujeito
e objeto de conhecimento. O importante no processo de aprendizagem
é permitir a passagem do desenho à figura, visto ser esse o
modo mais comumente usado de representar e comunicar o conhecimento
geométrico. O aspecto visual, porém, pode trazer dificuldades
na compreensão da figura que representa.
Por
essa razão, os ambientes dinâmicos passam a se constituir em
micro-mundos de aprendizado, visto que permitem o movimento
e deformação dos desenhos que representam as figuras, eliminando
a possibilidade de que características irrelevantes sejam consideradas
como propriedades. As propriedades e relações geométricas podem
ser verificadas. Elas constituem o desafio cognitivo necessário,
para que o sujeito possa revelar suas formas de conhecer (acomodação)
respondendo às questões que lhes são impostas.
Por
essas razões, o presente relato mostra uma proposta de atividades,
que estão sendo desenvolvidas na Escola Ecológica Bom Jesus
da Aldeia, a alunos de 7a série, do 4
o ciclo do ensino fundamental, buscando apresentar,
via software Cabri Géomètre, o ambiente de ação mental onde
o sujeito se depara com um objeto que sofre deformações. O objetivo
maior é verificar a assimilação do objeto geométrico pelos alunos,
segundo os níveis apresentados por van HIELE. Com o Cabri Géomètre,
é possível investigar como os alunos realizam, justificam e
investigam e, também, analisar como isso os habilita a compreender
objetos e relações geométricas, elaborando, ainda, argumentos
indutivos e dedutivos.
Algumas
propostas foram elaboradas e serão relatadas, quanto aos objetivos
e quanto às análises das respostas dadas pelos alunos, buscando
identificar as compreensões e as possibilidades de ultrapassagens
para noções mais elaboradas.
Sabemos
que a Geometria tem muitas aplicações no mundo real, porém os
conceitos obtidos na escola poucas vezes são utilizados na prática.
Um procedimento geométrico simplifica tanto a compreensão como
a apresentação de um determinado conceito, e o aspecto mais
importante deve-se ao fato de que as imagens geométricas constituem-se
um instrumento poderoso de raciocínio indutivo e criativo. A
Geometria oferece num vasto campo de idéias e métodos para o
desenvolvimento intelectual, desenvolvimento do raciocínio lógico
e da passagem de dados concretos e experimentais para processos
de abstração e generalização. Acredita-se que a Geometria é
importante para que se desenvolva o aprender a fazer e o aprender
a pensar.
O
Projeto tem os seguintes objetivos:
- Capacitar
os alunos para manipulação do software, visando sua aplicação,
para uma melhor compreensão dos conceitos geométricos.
- Analisar,
através das observações e registros das respostas dadas em
propostas no ambiente da sala de aula, como o aluno percebe
e compreende o objeto geométrico.
- Avaliar
se o aluno comprova, experimentalmente, as propriedades, ao
movimentar a figura.
Os
alunos têm a oportunidade de manipular a circunferência no ambiente
dinâmico e isso possibilita a análise de suas formas de atuar,
a partir dos dados sugeridos ou retirados do objetos.
Alguns
componentes da figura (aqui entendida como objeto geométrico)
não são referenciados pelos alunos, significando estarem ainda
no nível básico de reconhecimento que só permite a identificação,
comprovação e nomenclatura desse, com base em sua aparência
global observadas no desenho que representa a figura. É o caso,
por exemplo, da circunferência que, para significar assimilação
de tal objeto, deve ser identificada como o lugar geométrico
de pontos que eqüidistam de um ponto fixo. Essa eqüidistância
deveria ser associada ao raio. A alteração dessa corresponderá,
em dois sentidos, ao acréscimo, tanto da superfície delimitada
pela região contornada pelo conjunto de pontos, como o comprimento
do segmento de reta que está associado à linha de contorno.
Somente essa análise da figura, em termos de seus componentes
e reconhecimento de suas propriedades, já permitiriam identificar
o nível 1 ( de análise) no desenvolvimento do raciocínio em
geometria, no qual se encontra o aluno.
Quando
da manipulação de tal objeto no ambiente dinâmico, em virtude
da ferramenta disponibilizada, os alunos passam a considerar
a possibilidade de alteração somente em função de pontos que
podem ser visualizados e não concebidos. Alguns afirmam que
a circunferência não se modifica, por não estar ligada a nenhum
ponto. Poucos alunos reconhecem os componentes do objeto geométrico
em questão e se referem à alteração do diâmetro ou do raio da
circunferência.
Por
essa razão não conseguem se organizar (acomodação) para dar
conta de outros desafios. No caso da construção do quadrado,
para a obtenção dos lados iguais, não conseguem dar conta da
questão e apresentam o desenho representativo de um quadrado
que, ao ser deformado por um de seus vértices, deixa de ser
quadrado. Os lados iguais são obtidos pela criação de segmentos
de mesma medida. A circunferência não é identificada como o
lugar geométrico de pontos que garantiriam a igualdade da medida
dos lados. Novamente o desenho se impõe sobre a figura, e a
simples identificação do objeto por sua aparência global é suficiente
para constituir a solução do problema apresentado.
As
análises das respostas dos alunos revelam que é necessário a
reorganização da prática educativa que possibilite a construção
dos objetos geométricos pelos alunos. Essa formação é essencial
para que eles possam manipular os objetos geométricos presentes
em outras situações, não só na sua promoção para níveis mais
avançados de escolaridade, mas para sua melhor relação com o
ambiente onde vive.
O
projeto proposto está permitindo a verificação da possibilidade
do professor pesquisador, no ambiente da sala de aula.
Temos
muito a percorrer para aprender, mas estamos convictos de que
caminhos alternativos deverão ser percorridos para dar conta
da educação matemática de qualidade, que se faz necessária,
e para o enfrentamento do fracasso escolar em matemática, aqui
entendido como o fracasso da escola, em dar conta do processo.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
PIAGET,
Jean. Abstração reflexionante: relações lógico-aritméticas
e ordem das rela;ções espaciais.Porto Alkegre: Artes
Médicas, 1995.
ROSSO,
Ademir, BECKER, Fernando & TAGLICHER, José Erno. Ação
mental: o elemento central da cosntrução do conhecimento.
Texto digitado.
INSTITUIÇÃO:
Associação Franciscana de Ensino Senhor Bom Jesus: Unidade:
Escola Ecológica Bom Jesus da Aldeia. Br 277, km 17,5, Rondinha.
Curitiba Paraná.
Celia Finck Brant e-mail: brandt@bsi.com.br
Márcia Dallagrana Colatusso e-mail: mdalla@calnet.com.br
Associação Franciscana de ensino Senhor Bom Jesus: Unidade:
Escola Ecológica Bom Jesus da Aldeia e-mail: bjaldeia@.bomjesus.br
RESUMO
O presente relato tem por objetivos apresentar os desempenhos
dos alunos frente a propostas de trabalho compreendendo objetos
geométricos em ambientes dinâmicos. As análises apoiam-se nos
papéis que a acomodação e assimilação desempenham na construção
do conhecimento e podem ser revelados quando o sujeito se organiza
para responder aos desafios do ato cognoscitivo. A abstração
reflexionante apontada por Piaget dá conta de explicar o porquê
do indivíduo dar esta ou aquela resposta a um problema. Procuramos
a interestruturação entre sujeito e objeto de conhecimento segundo
os níveis de van Hiele. O aspecto dual dos objetos geométricos,
apresentados na figura e nos desenhos que as representam foram
também objeto de investigação quando da construção das noções
pelos sujeitos. O relato compreende as atividades propostas
no ambiente da sala de aula para alunos de 7 série da Escola
Ecológica Bom Jesus da Aldeia., através de roteiros. De acordo
com as respostas dadas e através da verificação dos das formas
de organização para responder às questões propostas pudemos
verificar que a abstração reflexionante pode dar conta de explicar
por que o aluno não consegue extrair o que foi construído num
patamar A para colocar em relação ou coordenar com outros objetos
num patamar B. Ao considerar o papel essencial da ação mental
contamos com elementos que possibilitam discutir, avaliar e
re-significar as iniciativas e o horizonte teórico das ações
pedagógicas. Tais elementos devem se referir às relações entre
sujeito e objeto de conhecimento no domínio do epistemológico
e às formas como os sujeitos se organizam para responder aos
desafios do ato cognoscitivo no domínio do psicológico. Estes
elementos são necessários e inerentes ao ato de aprender e se
refletem no domínio do metodológico que compreende a organização
das atividades de ensino . O projeto está permitindo verificar
a eficácia da pesquisa na formação do professor e a identificação
da necessidade de propostas diferenciadas que permitam contribuir
para a educação matemática.
SUMMARY
The
present statement has the purpose of presenting the development
of students concerning work proposals including geometric objects
in dynamic environments.
The
analyses are backed with papers that accommodation and assimilation
represent in the construction of knowledgement and can be revealed
when the subject is organized to answer to the challenges of
the cognitive act. The reflexive abstraction pointed out by
Piaget explains why an individual responds this or that way
related to a specific problem. We have looked for the inter-structuring
between the subject and the object of knowledge according to
the levels of van Hiele. The dual aspect of geometric objects,
portrayed in the figure and drawings,which represent them, were
also objects of investigation during the construction of notions
by the subjects.
The
statement comprehends the activities proposed in the classroom
environment for 7th grade students of the "Escola
Ecológica Bom Jesus da Aldeia" (an ecological school in
Brazil), through a guidebook. According to the answers and through
checking the forms of organization in answering the proposed
questions, we could feel that the reflexive abstraction can
perfectly explain why the student cannot extract what has been
built on a specific "A" level to place it relation
to, or to coordinate it, with other objects on a "B"
level.
Considering
the essential roll of mental action, we count on elements that
make possible to discuss, evaluate and re-consider the initiatives
and the theoretical horizon of pedagogic actions. Such elements
must refer to the relations between knowledgment subject and
object in the epistemological domain and the ways subjects are
organized to respond to the challenges of the cognitive act
concerning the psychological domain. These elements are necessary
and are part of the learning process and are reflected on the
methodological domain that comprehends the organization of teaching
activities.
The
project allows checking the efficiency of the research concerning
the teachers background and the identification for the
need of different proposals that can promote a contribution
for math teaching.
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