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Relatos
de Experiência
CABRI
-GÉOMÈTRE : UMA AVENTURA EPISTEMOLÓGICA
Marcia Oliveira Cavalcante Campos
RESUMO
Ao
observar o crescente interesse das crianças por computadores
e a introdução da informática educativa nas escolas, ficamos
muito interessados em compreender se um software seria realmente
capaz de desenvolver raciocínio e se este tipo de atividade
teria um diferencial qualitativo para a aprendizagem dos alunos.
Tentando responder a esta pergunta, realizamos uma intervenção
com um grupo de estudantes usando um software educativo de origem
francesa, conhecido como Cabri-géomètre, que permite trabalhar
o conteúdo da geometria euclidiana. O objetivo desta investigação
foi essencialmente, observar o processo qualitativo de aprendizagem
dos alunos com este software e a repercussão deste tipo de aprendizagem
para seu desenvolvimento cognitivo.
A
intervenção foi realizada com um grupo de treze estudantes,
todos cursando a sexta série, com idade compreendida entre 11
e 14 anos. Eles eram oriundos de uma escola pública de Fortaleza.
Foram propostos conteúdos em forma de situações-problemas, conjugados
às possibilidades do software. Duas questões-problemas principais
foram propostas antes e depois da intervenção. As respostas
dos alunos a estas questões foram analisadas e comparadas. Para
elucidar variáveis que poderiam intervir em suas respostas,
procuramos traçar alguns detalhes da história escolar e familiar
dos estudantes.
Os
alunos melhoraram sensivelmente o nível de suas respostas às
questões-problemas, que serviram como parâmetro para observar
seu desenvolvimento após às sessões com o Cabri-géomètre. Suas
respostas tornaram-se mais claras; mais diferenciadas e houve
uma boa estimulação de suas habilidades intelectuais. Contudo,
o grande diferencial deveu-se não só ao uso exclusivo do computador,
mas de todo o ambiente de aprendizagem, mediado por um professor
que os instigava e mantinha com eles uma relação amigável.
Abstract
In
order to observe the growing interest for computers amongst
childrenand the introduction of educational computer use in
schools we were interested to find out if software was really
able to develop reasoning and if this kind of activity brings
any real learning advantage to students. In an attempt to reply
to this question we carried out an experiment with a group of
students using an educational software in French known as Cabri-géométre,
which allows work in Euclidean geometry. The objective of this
investigation was essentially to observe the process of learning
improvement amongst the students using this software and the
repercussion that this kind of learning would have on their
development perception.
The
experiment was carried out amongst a group of thirteen students
all of them in 6th Grade and ages varying between 11 and 14
years. They came from a public school in Fortaleza. Subjects
were presented in the form of problem situations, subjected
to the capability of the software. Two principal problem situations
were made before and after the experiment. The students' replies
to these questions were analysed and compared. In order to clarify
variables which might have influenced their replies we tried
to follow through on some details obtained from school records
and from students' families.
The
students improved the level of their answers to the questions/problems
considerably and these served as a basis for observation of
their development after sessions with Cabri-gèometrie. Their
replies became clearer, more precise and their intellectual
capabilities were considerable encouraged. In all, the great
difference is due to not only the use of a computer but the
whole learning process, controlled by a teacher who stimulates
and maintains a friendly relationship with them.
CABRI-GÉOMÈTRE:UMA
AVENTURA EPISTEMOLÓGICA
1.
O processo de intervenção: seus objetivos e método
Esta
aventura foi empreendida com a intenção de compreender como
as crianças construíam seu conhecimento através de uma estimulação
ativa com um software educativo. Para isto, suas respostas aos
desafios propostos através deste aplicativo, foram analisadas
e estudadas a luz de alguns autores, entre os quais Piaget e
Vygotsky. Originalmente, esta pesquisa foi estruturada para
observar, em uma situação relativamente controlada:
a)
o que as crianças aprendiam com o Cabri-géomètre;
b)
que diferencial este tipo de aprendizagem poderia ter para seu
desenvolvimento cognitivo;
c)
qual a diferença essencial entre a aprendizagem das crianças
designadas como fortes e fracas;
d)
observar como a aprendizagem adquirida com o aplicativo em questão
poderia generaliza-se como uma ferramenta capaz de ser utilizada
na resolução de problemas e se de algum modo, após todas as
aulas, tal aprendizagem poderia de algum modo repercutir no
pensamento lógico matemático dos estudantes.
Embarcamos
nesta aventura, juntamente com treze estudantes de uma escola
pública de Fortaleza. A área do conhecimento que trabalhamos
foi a geometria euclidiana, da qual selecionamos um conteúdo
compatível com o nível de escolaridade das crianças, 6.ª série,
e uma metodologia para aplicá-lo. Este trabalho foi realizado
de maneira sistemática durante os meses de outubro e novembro
de 1997. Os alunos foram subdivididos em dois grupos. Eles compareceram
a sala de multimeios que foi fundada com recursos da CAPES na
Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Educação, por duas
vezes semanais durante um tempo de uma hora e trinta minutos
cada grupo, perfazendo um total de dezesseis sessões .
No
início e final da intervenção, os alunos forma submetidos a
duas questões- problemas principais, cujos resultados tinham
a intenção de servir como parâmetros de comparação do desempenho
dos garotos antes no final da experiência. Estas questões foram
denominadas respectivamente Questão da Ponte e dos Vinte e Três
Reais. Outras questões-problemas foram trabalhadas com elementos
do processo, mas não serão enfocadas neste trabalho, porque
seus resultados se refletem através destas duas questões já
mencionadas.
A
escolha do aplicativo utilizado de nome Cabri-géomètre deveu-se
as suas amplas qualidades e credibilidade, que são bastante
reconhecidas no meio acadêmico através das crescentes publicações
sobre o mesmo. É um software de origem francesa, que permite
simulações e construções abertas, podendo ser caracterizado
como um micromundo. Contudo nosso objetivo não era propriamente
trabalhar a matemática ou os conceitos geométricos, mas de observar
como a criança em interação com este software considerado como
muito bom entre os especialistas em educação e áreas afins,
construiria seu aprendizado, qual o principal diferencial para
este ensino assistido por computador e quais os processos cognitivos
envolvidos neste tipo de atividade que o aplicativo poderia
contribuir para desenvolver.
Foi
parte da metodologia, traçar um perfil do grupo de estudantes,
a sua composição familiar, seus gostos e preferências de lazer,
porque tínhamos a consciência de ter ali uma pessoa inteira
e não um sujeito cognitivo do qual simplesmente seriam extraídas
respostas para posterior análise. Eram crianças, cujos pais
tinham profissões bastante mal remuneradas. Os pais geralmente
liam pouco e tinham poucas opções de lazer. Uma das crianças
tinha um pai com curso superior e outra uma mãe que trabalhava
em uma biblioteca. Estes foram os alunos que mais se destacaram
no processo da intervenção. Exceto por três alunos, a maioria
do grupo não havia ainda tido acesso ao computador, embora boa
parte já tivesse jogado algum tipo de jogo eletrônico.
De
acordo com os conteúdos, estruturamos uma seqüência didática
que objetivava trabalha-los num contexto de desafio, dando aos
alunos a oportunidade de compreender e construir seus próprios
enunciados conceituais. Em sessões seguidas, propusemos problemas
onde eles tinham que usar o que haviam supostamente aprendido
anteriormente, com a finalidade de verificarmos seus processos
de generalização .
A
seleção dos conteúdos levou em consideração a noção do campo
conceitual necessário para resolução da questão da ponte. A
noção de campo conceitual foi desenvolvida por Vergnaud (1996
: 11) , com o objetivo de "tentar melhor compreender
os problemas de desenvolvimento específico no interior de um
mesmo campo de conhecimento".
Após
cada sessão os estudantes respondiam a um pequeno questionário
onde colocavam o que haviam aprendido, o que tinha gostado,
o que não tinham gostado e como gostariam que este trabalho
fosse realizado. Eles sempre foram ouvidos nas sessões de forma
oral e também por escrito, quando podiam colocar suas dúvidas
e críticas.
2.
Resultados e comentários
As
questões-problemas principais, pelas quais analisamos as respostas
dos alunos antes e ao final da intervenção foram: a Questão
da Ponte e dos Vinte e Três reais, que serão descritas a seguir.
A
utilização da Questão dos Vinte e Três reais visava a verificar
se a aprendizagem que as crianças conseguiram com as atividades
propostas através do Cabri-géomètre, contribuíram para desenvolver
o seu raciocínio lógico-matemático, generalizando-se para além
dos conteúdos específicos de geometria. Ela foi formulada com
o seguinte enunciado: "tenho o mesmo tanto de dinheiro
que você. Do meu dinheiro eu tirei vinte e três reais e dei
para você. Com quanto você ficou a mais do que eu?" Esta
pergunta foi retirada de um estudo realizado por Louis Joahnnot(1947),
discípulo de Piaget, que a usou com adolescentes na Suíça para
classificar os tipos de raciocínio do período lógico formal.
Comparando
as respostas dos alunos a esta questão, na primeira e última
sessão pudemos observar algumas diferenças significativas:
- quatro
crianças mantiveram o mesmo tipo de resposta entre a primeira
e a última sessão, sendo que destas, uma já havia acertado
desde o início e outra teve seu desempenho prejudicado devido
o seu elevado número de faltas, pois esteve ausente durante
cinco sessões;
- nove
crianças conseguiram elaborar a questão com mais clareza do
que na primeira vez que as abordamos, sendo que uma entre
estas conseguiu resolvê-la com acerto;
- somente
duas crianças deram solução correta para o problema .
Acreditamos
que houve uma repercussão qualitativa positiva no nível de
raciocínio das crianças a partir do trabalho realizado. Para
explicar estes progressos, recorremos a relação de como a
aprendizagem pode influenciar o desenvolvimento. Vygotsky
(1984:101) teceu importantes comentários a este respeito,
onde demonstrou que o aprendizado escolar cria zonas de proximais.
Seu objetivo era mostrar que as estruturas de raciocínio podem
desenvolver-se com a aprendizagem. Talvez não tenha ocorrido
um salto qualitativo tão grande a ponto dos estudantes, em
sua maioria com um nível raciocínio cujas características
se assemelhavam às descritas no período operatório concreto,
passassem ao operatório formal. Contudo, suas habilidades
intelectuais se refinaram, se clarificaram e se diferenciaram
um pouco mais, fato este que se refletiu na lógica que utilizaram
em suas respostas.
Ao
analisarmos as respostas dos alunos pudemos distinguir três
tipos essenciais que foram classificados sob o ponto de vista
da lógica contida em cada uma delas: se eram sincréticas,
ou seja fugiam totalmente ao que era perguntado; se apresentavam
alguma ordenação lógica, mesmo que incompletas porque enfatizavam
uma ou duas das operações necessárias para a resolução do
problema dos vinte e três reais; ou se eram respostas lógicas
porque a criança conseguia resolver todas as operações envolvidas
no problema.
O
enunciado da Questão da Ponte será apresentado na figura 1:
Figura
1. Questão da Ponte na tela do Cabri-géomètre
A
Questão da Ponte pode ter alguns níveis de resposta que indicam
um tipo estratégia usado pela criança que está diretamente
relacionado ao desenvolvimento de alguns conceitos matemáticos:
- espaço:
a criança tem que entender que os desenhos representam espaços
que possuem direção e que possuem distâncias entre si;
- simetria:
compreender que a distância entre ponte, cidade A e cidade
B, para atender a resolução do problema têm que ser iguais;
se são iguais, não podem ser maior nem menor. Isto requer
a compreensão destas relações: maior, menor, igual relacionando
não apenas duas distâncias, mas três que têm que ser simultaneamente
postas em relação. Isso precisa também de certo grau de reversibilidade
e conservação;
- parâmetros
para medir;
- compreender
a noção de termo médio e mediana;
- entender
que a mediatriz quando se prolonga, guarda uma distância equivalente
dos pontos A e B;
f)
perpendicular : a mediatriz é sempre perpendicular ao segmento
no qual está inserida;
- interseção:
uma vez que o ponto ideal para a construção da ponte é a interseção
da mediana com o rio, este conceito tem que estar suficientemente
claro para ela.
Ninguém
conseguiu resolver esta questão na primeira aplicação. Ao
final, dez dos estudantes conseguiram resolvê-la. O processo
de construção da ponte, foi ao longo da intervenção uma imersão
no universo conceitual das crianças. Através da experiência
com o Cabri-géomètre, arrastavam as figuras e observavam suas
transformações, comparavam com outras, tinham que sintetizar
isto e formular um enunciado "conceitual." Podem
não ter desenvolvido suas estruturas mentais a um nível significativo,
mas ficou claro que conseguiam progressivamente elaborar conceitos
de melhor qualidade e demonstravam maior diferenciação em
seu pensamento. Acreditamos que alguns programas como este,
podem efetivamente, dependendo da habilidade do professor,
estimular as habilidades intelectuais dos estudantes e levá-los
a refletir sobre sua ação. A maioria dessas crianças realmente
generalizaram o conceito de mediatriz, porque o utilizaram
de modo seguro na resolução do problema que não dizia: resolva
com mediatriz e encontre.
CONCLUSÃO
Percebemos
que foi muito importante para as crianças, esta oportunidade
de ter acesso a este trabalho, porque elas foram estimuladas
a produzir os próprios conceitos, através da experimentação
com o Cabri-géomètre, onde arrastavam as figuras e
observavam suas transformações, comparavam com outras, tinham
que sintetizar isto e formular um "enunciado conceitual."
Podem não ter desenvolvido suas estruturas mentais a um nível
significativo, mas ficou claro que conseguiram progressivamente
elaborar conceitos de melhor qualidade e demonstrar uma maior
diferenciação em seu pensamento. Acreditamos que alguns programas
como este podem, dependendo da habilidade do professor, estimular
as habilidades intelectuais dos estudantes e levá-los a refletir
sobre sua ação. Acreditamos, também que a maioria dessas crianças
realmente generalizou o conceito de mediatriz, porque eles
o utilizaram de modo seguro na resolução do problema que não
dizia: resolva com mediatriz e encontre.
Na
presente investigação, também procuramos observar como os
alunos representavam algumas figuras geométricas com papel
e caneta, após trabalhá-las com o Cabri-géomètre. Propusemos
aos alunos que desenhassem numa folha de ofício as figuras:
reta, semi-reta, segmento de reta. Pedimos, também, que representassem
ponto médio e mediatriz. Em matemática, segundo Imenes &
Lelis (1998:274)), "uma linha traçada com régua é uma
linha reta"; a reta é concebida como sem começo, sem
fim e sem espessura. Essa foi exatamente a representação conceitual
feita pela maioria dos alunos e alunas. Ao desenhá-la com
lápis e papel, a desenharam tendendo ao infinito em suas extremidades.
No entanto, fizeram o mesmo ponto sobre a figura existente
no Cabri, conforme podemos verificar na figura 2.
Na
construção axiomática da geometria euclidiana, um dos axiomas
diz que que por dois pontos distintos passam uma única reta.
A reta representada por 80% dos estudantes tinha um ponto
em cima. Também Laborde (1993), ao investigar o que os jovens
aprendiam com o Cabri-géomètre, entre suas observações,
descreveu que eles determinavam a reta com um ponto sobre
ela e não dois. Em relação aos conceitos e representação gráfica
de figuras geométricas, é interessante que o uso de gráficos,
lápis e papel não seja suplantado pelo uso exclusivo deste
aplicativo, para que não se crie uma geometria do Cabri-géomètre,
e os estudantes não generalizem a geometria como sendo este
software, que deve cumprir sua função como ferramenta
auxiliar. Momentos para outro tipo de atividades que envolvam
papel e caneta, atividades opcionais e mesmo a teoria através
de livros, necessitam ter seu espaço nesta modalidade de ensino.
Pudemos
observar no decorrer de nossa intervenção que as crianças,
algumas vezes, entendiam o enunciado de uma questão e podiam
até explicá-lo fielmente, mas não possuíam, às vezes, a representação
interna da operação a ser realizada. Isso nos remete a célebre
analogia entre pensamento e linguagem. O conceito, da maneira
como é expresso por Vygotsky, refere-se à lógica de classes.
Exemplo: O que é um cachorro? O cachorro é um animal mamífero...
Mas, o pensamento vai muito mais além da lógica das classes,
porque no nível formal ele opera com relações entre classes,
relações que observam simultaneamente o grupo de quaternalidade
das operações. A lógica das operações, nesse sentido de compreender
transformações simultâneas, superam a lógica da linguagem.
Ao
analisar os conceitos desenvolvidos pelos alunos, observamos
que os elaboravam ressaltando sua funcionalidade ou formulavam
pseudoconceitos, e pouquíssimos desenvolveram o conceito propriamente
dito, ou seja, o conceito científico, de acordo com as características
de classificação de Vygotsky. Não queremos com isto desvalorizar
os conhecimentos conquistados pelos alunos, que foram muito
ricos, mas apenas deixar claro que, de acordo com esta classificação,
a qual achamos bastante procedente, outro patamar ainda necessitava,
em termos de construção conceitual, ser alcançado.
Constatamos,
de acordo com a nossa prática, que Vygotsky estava absolutamente
certo ao valorizar a instrução construída através da interação
de conceitos espontâneos e científicos. Por isso, as descobertas
dos estudantes através de uma metodologia que estimule a atividade
e os desafios devem estar também vinculadas a momentos com
o professor, nos quais ele possa sintetizar os conhecimentos
já construídos espontaneamente e relacioná-los com os já construídos
cientificamente dentro de determinado assunto. Mas, embora
concordando com que a instrução é necessária para o desenvolvimento,
para que este realmente ocorra, é preciso haver interação
dos conceitos espontâneos e científicos e isso não ocorre
sem ação, seja esta no plano concreto ou virtual.
Acompanhando
o processo dos estudantes, verificamos que conceituar não
implica generalização. Existe uma diferenciação entre a generalização
de um conceito espontâneo gerado na vivência e ação espontânea
para o conceito adquirido de modo verbal pela consciência.
Para conceituar um comportamento que existe como ação, a tomada
de consciência, segundo Piaget, é o canal necessário. Ela
reconstitui a ação no plano verbal e reflexivo de modo mais
rico, porque desprendido do concreto. Piaget descreveu em
suas obras "Fazer e compreender"(1978) e "A
tomada de consciência" (1977) a respeito da elaboração
de conceitos espontâneos para conhecimentos que já estavam
incorporadas no plano da ação. Mas, para o conceito que penetra
pelos portais da consciência, como no caso do conceito científico,
este conhecimento ainda não está generalizado. Serão necessários
os mecanismos de acomodação para que haja essa generalização.
Acreditamos
que os conceitos formulados pelos garotos com o Cabri-géomètre
não eram totalmente espontâneos, porque eram intermediados
por nós, monitores, e não estavam incorporados à vivência
anterior dos alunos. Mas, também, não eram totalmente científicos,
no sentido já descrito por Vygotsky, porque eram de certa
forma construídos pela ação dos estudantes com a intermediação
que consistia em contra-exemplos e desafios. O certo é que
eles ainda não estavam acomodados aos esquemas das crianças
e que a simples enunciação do conceito não as levava a saberem
como aplicá-los em outras situações, ou seja, não os generalizava.
A aprendizagem incorpora elementos do contexto e necessita
de vivências e experiências múltiplas para que possa abstrair-se
dele. Disso decorre que uma seqüência didática, se possui
como objetivo levar os alunos a generalizar, precisa proporcionar
contextos diversificados de aplicação. Por exemplo: procurar
a mediatriz em várias figuras: triângulo, quadrado, segmento
de reta...
A
diferença entre os alunos ditos mais fortes e mais fracos
foi observada numa tendência dos mais fracos a serem mais
sincréticos e mais egocêntricos intelectualmente. Contudo,
nem sempre o mais fraco teve o pior desempenho em todas as
atividades. Chico, por exemplo, que nem sempre se saía bem
com os problemas ou com a elaboração de conceitos, avançou
de modo extraordinário nos desafios do software chamado
Box World, um joguinho muito interessante que possui 100 níveis
de dificuldades crescentes e que exige estratégias de planejamento
espacial.
A
esse respeito, a teoria de Gardner, das inteligências múltiplas,
tem uma explicação que julgamos interessante. Ele diz que
inteligência é muito mais do que raciocínio lógico, como supôs
Piaget, e propõe uma definição mais abrangente: Inteligência
é a capacidade de resolver problemas ou elaborar produtos
que sejam valorizados em um ou mais ambientes culturais ou
comunitários (Gardner, 1994:14). Com esta ampliação, ele
descreveu sete inteligências: inteligência musical; inteligência
corporal-cinestésica; inteligência lógico-matemática; inteligência
lingüística; inteligência espacial; inteligência interpessoal
e inteligência intrapessoal. Para classificar essas sete inteligências
ele lançou mão de alguns critérios:
- seus
estudos sobre crianças normais; com danos cerebrais; crianças
que apesar de algum tipo de retardamento, possuíam determinadas
habilidades especiais; indivíduos talentosos; estudos sobre
a evolução da cognição ao longo do milênio, incluindo a psicometria;
- toda
inteligência possui uma operação peculiar com uma base neural
e estímulos que a desencadeiam;
- toda
inteligência possui um sistema de símbolos, ou uma linguagem
própria.
A
partir dessas considerações, ele propôs uma escola que avaliasse
de maneira sensível as habilidades daquelas crianças consideradas
incapazes e fizessem uma pesquisa na comunidade para avaliar
como poderia ela se desenvolver naquele habitat. Chico era
uma criança bloqueada, com enormes dificuldades, e, qual não
foi nossa surpresa, ao vê-lo superando os amigos num jogo
considerado não muito fácil nem para adultos...Compreendemos,
então, com este e com outros exemplos, que a performance de
uma criança em um teste não é suficiente para avaliá-la quanto
as suas potencialidades. E que aquela criança, como outras
também, embora tivessem tido um desempenho não muito bom em
questões que exigiam no raciocínio lógico-matemático, possuíam
habilidades que eram desvalorizadas e desconhecidas pelo viés
da escolarização formal.
O
Cabri-géomètre é um software que é, por si só,
desinteressante, porque as crianças preferem os jogos de multimídia
com cores, som e ação até pelo fato de serem mais lúdicos
e mais envolventes. Porém, é uma ferramenta poderosa para
desenvolver as habilidades intelectuais das crianças, desde
que conduzida por um professor que saiba propor bons desafios
com ele e que se preocupe verdadeiramente com a subjetividade
da aprendizagem dos alunos.
É
interessante lembrar que a aprendizagem não é impessoal e
o afeto é a energia da ação, como frisou Piaget. Sem "energética",
toda ação é desinteressaste. Essa motivação passa pelo relacionamento
pessoal, que principalmente com crianças e adolescentes não
deve nunca ser descuidado. A figura do professor é fundamental,
por isso o investimento em tecnologia sem investir em recursos
humanos torna-se uma panacéia . Piaget defendeu a formação
do professor como questão primordial de todas as reformas,
sem o qual não adianta belos programas ou belas teorias a
respeito do que deve ser realizado. (Piaget, 1976:28).
Contudo,
potencialmente, o ensino assistido por computador pode proporcionar
várias oportunidades aos alunos como:
- aprendizagem
mais ativa e interativa, não passiva como numa emissão de
TV. O aluno pode interagir com o computador, propor soluções,
ter feedback; através da figura 3, podemos visualizar,
pela expressão do rosto do aluno, uma postura que nos leva
a crer que ele está tendo uma atitude mental ativa de interatividade
com a máquina.
- a
aprendizagem deixa de ser auditiva e passa a usar também recurso
visual, o que é muito interessantes às crianças que têm predominância
visual, mais do que auditiva, como o caso de algumas crianças
com desvios de aprendizagem;
- um
software aberto pode ser um ótimo recurso para desenvolver
a criatividade, autonomia e as habilidades intelectuais descritas;
- proporciona
trocas grupais;
- eleva
o nível de interesse e concentração;
- favorece
situações em que podem acontecer aprendizagens mais individualizadas.
Os
garotos com desempenho mais brilhantes no estudo foram Vinícius
e Fred. Foi muito interessante relacionar esse desempenho com
a cultura familiar. O pai de Fred tinha curso superior, era
professor e o seu primo lhe dava aulas de informática. A mãe
de Vinícius trabalhava numa biblioteca e sempre levava livros
para os filhos lerem. Vinícius tem computador. Ora, esses detalhes
indicaram que havia uma maior circulação de estímulos no que
diz respeito à cultura mais acadêmica no meio ambiente de cada
um destes garotos.
Os
alunos demonstravam muita satisfação nos nossos encontros; chegavam
cedo e saíam tarde, praticamente não faltavam. Eles verbalizaram
em suas avaliações que gostaram mais do ensino assistido por
computador e descreveram, em suas avaliações individuais escritas,
o que pensavam ser o diferencial desse tipo de ensino para o
da sua própria escola, onde têm ensino transmitido por TV.
Através
dessas avaliações dos estudantes, verificamos que eles privilegiavam
não só o ensino assistido por computador, que reconhecidamente
facilitava, mas a estrutura de conjunto da intervenção, em que
computadores e monitores formavam um todo inseparável.
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